Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Maturidade

Em conversa com uma amiga chegámos à conclusão que procurávamos coisas no nosso blogue. É uma espécie de arqueologia de nós próprias, acho... Já procurei citações de livros ou imagens. Tenho aqui um belo arquivo da infância do M. (o que provavelmente já não farei com a Maria).
Não sei o que será o futuro disto, mas faz-me falta escrever. e ainda mais falta me faz pensar.
Ando afastada de mim própria.
Por isso, faz para mim todo o sentido estas frases da Elena Ferrante em "História de quem vai e de quem fica". Como não as quero perder no arquivo do que sou voltei aqui.

"Dizia para comigo que a maturidade consisitia em aceitar o rumo que a vida tomara sem nos agitarmos muito, traçar um sulco entre a rotina diária e aquisições teóricas , aprendermos a olhar para nós e conhecermo-nos, enquanto esperamos por grandes mudanças."

e, no diálogo entre Nino e Pietro:

"Tens de dar mais tempo à tua mulher."
"Tem o dia inteiro à disposição."
"Não estou a brincar. Se não o fizeres, és culpado, não só no aspeto humano como no político."
"Qual seria o crime?"
"O desperdício de inteligência. Uma comunidade que acha natural sufocar com os cuidados dos filhos e da casa tanta energia intelectual de mulheres, é inimiga de si própria e não se apercebe disso."

( a imagem é da série que a HBO fez inspirada nos livros. Não tinha outra para por.)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015


 Dei por mim a ser a bibliotecária de serviço lá no museu. Receber livros novos, poder lê-los (mesmo que seja em diagonal) é um privilégio. Mas as bibliotecas, como os arquivos, são sítios de arrumação – locais onde tudo tem um lugar próprio e exacto, onde não pode haver dúvidas. Tudo certo, claro. Não fosse o problema de ter um espírito pouco dado a normas e muito dado a dúvidas. Este livro do García Lorca, por exemplo, deu-me voltas à cabeça e ficou à espera durante muito tempo. Ele podia ser catalogado em todas as categorias, mas também não cabia em nenhuma. Ou seja, catalogar García Lorca, embora necessário, parecia diminui-lo, apequená-lo e seria até injusto. Óbvio que tive de o fazer, como o fizeram inúmeros bibliotecários e livreiros antes de mim. Teriam também eles dúvidas? Para me redimir deixo-vos este retrato de olhos doces que é a capa da edição da Assírio & Alvim e isto: “Chegado este momento, vemos os amantes a abraçarem-se nas ondas.” Federico García Lorca

domingo, 20 de setembro de 2015

Um livro e uma banda sonora.

Parece que algo caracteriza 2015. Uma ida a Mértola e à feira islâmica, o concerto no Largo do Intendente dedicado ao poeta rei Al-Mu'tamid, que acabou por se tornar a banda sonora inúmeras vezes repetida, a que se juntou o livro dedicado ao mesmo.
Falta-me uma ida a Silves e a Sevilha, que ficarão para outro tempos. Outra vida tivesse e iria aprender árabe.

"Ao recolher-me na escrita, consigo, por vezes, na diversidade das circunstâncias, distinguir uma figura que se assemelha à natureza da pessoa que terei sido. Mas, mal tento chegar mais perto, pareço um viajante a observar uma terra estranha."
Ana Cristina Silva, Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'tamid

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Os átomos de infantilidade

"É preciso pensar o devir-criança enquanto átomos de infantilidade, que produzem uma política infantil (desta vez, sim) molecular, que se insinuam nos afrontamentos molares de adultos e crianças..."
S. Corazza, Infancionática..., 2003, p. 101

Daqui, deste texto de Walter Omar Kohan

segunda-feira, 22 de junho de 2015

As Ondas

Tropeçar em palavras que me podiam definir:
"É por isso que odeio espelhos que mostram o meu verdadeiro rosto. Quando estou só, é com frequência que me deixo cair no vazio. Tenho de ter cuidado e ver onde ponho os pés, não vá tropeçar na orla do mundo e cair no vazio. Tenho de bater com a cabeça nas paredes para poder voltar ao meu próprio corpo."
Virgínia Woolf, "As Ondas" 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Siri Hustvedt


"Toda a história que contamos sobre nós mesmos só pode ser contada no pretérito. É um recuo no tempo do ponto de vista em que estamos agora, quando já não somos mais os actores da história, mas seus espectadores que resolveram falar. A trilha atrás de nós às vezes está marcada por pedrinhas, como as que João e Maria deixam atrás de si em sua primeira ida à floresta. Outras vezes, o rastro desaparece, porque os passarinhos voaram até lá e comeram todos os pedacinhos de pão ao amanhecer. A história sobrevoa as lacunas, preenchendo-as com "e" ou um "então". Fiz isso nestas páginas para continuar numa trilha que sei que é interrompida por fossos ocos e vários buracos profundos. Escrever é uma forma de rastrear minha fome, e a fome nada mais é que um vazio."*

Não conheceria esta escritora não fosse ter uma família culta que me fala e muitas vezes me empresta livros bons.
Sendo uma obra desconhecida, não sabia muito bem o que me esperava quando comecei a ler "Aquilo que eu Amava", mas o meu interesse foi crescendo à medida que avançava na leitura e que a trama do livro se adensava.
A história gira em volta da vida de dois casais amigos. O narrador é historiador de arte e escreve muitas vezes sobre o seu amigo pintor. As suas duas mulheres têm filhos ao mesmo tempo, aparecendo posteriormente uma terceira personagem feminina que casa com o pintor. Os filhos, a vida quotidiana destes casais que vivem no mesmo prédio, as questões académicas e filosóficas ligadas ao seu percurso profissional (pintura, história da arte, psicologia, poesia), tudo cabe neste livro, como cabe na nossa vida e como, estranhamente, acabará por fazer também parte da nossa morte.
Fiquei com vontade de ler todos os livros dela!

Para saber mais: Siri Hustvedt 

(* Li a versão brasileira, que transcrevi aqui)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Galeano, Eduardo

"O papagaio que brotou da pena
teve penas vermelhas do fogo
e penas azuis do céu
e penas verdes das folhas da árvore
e um bico duro de pedra e dourado de laranja
e teve palavras humanas para dizer
e água de lágrimas para beber e refrescar-se
e teve uma janela aberta para escapar
e voou na rajada de vento."
in História da Ressureição do Papagaio

É um dos livros mais bonitos que temos cá em casa. E, como quase todos os livros que cabem na categoria de "bonitos", é do Manuel. Gosto muito de o ler e a educadora do ano passado chegou a trabalhar com esta história que foi recontada por Eduardo Galeano a partir de uma lenda do Nordeste brasileiro.
Está editado pela Kalandraka e as ilustrações são de António Santos.
Do Eduardo Galeano, existem muitos outros livros para ler e até esta fantástica história dos abraços.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Para tomar o aspecto de uma fénix


Fiz uma contratura muscular na aula de sexta. 
A casa tornou-se um caos que não consigo resolver. 
Os rapazes não estão cá.
À falta de conseguir fazer melhor, sentei-me a emparelhar e coser meias. 
Olhei para o lado e vi o livro que tirei da estante há mais de um mês. Comprei-o no primeiro ano de licenciatura, em 1995.

"Fórmula para tomar o aspecto de uma fénix.

Palavras ditas por N.:

Eu voei como um deus primordial, eu vim à existência como Khepri, eu cresci como uma planta, eu protegi-me com uma carapaça como uma tartaruga. Eu sou o fruto de cada deus. Eu sou a sétima destas sete uraeus que se encontram no Ocidente, o Hórus que se torna luminoso a ele próprio, este deus (que julgou) contra Set, o Tot que se colocou no meio deles neste julgamento do chefe de Letópolis com as Almas de Heliópolis, a água que correu entre elas. Eu vim neste dia, tendo aparecido na procissão dos deuses. Eu sou khonsu, aquele que se opõe aos senhores.

Quem conheça esta fórmula sendo puro, pode sair à luz do dia depois da sua morte e tomar os aspectos que o seu coração deseja tomar; (pode) estar entre os seguidores de Uen-nefer, alimentar-se dos alimentos de Osíris, ter a oferenda funerária, ver o disco solar, ser próspero sobre a terra junto de Ré, é justificado junto de Osíris, e nenhum mal tem poder sobre ele. Isto foi verdadeiramente eficaz milhões de vezes."
O livro dos mortos do Antigo Egipto, Assírio & Alvim 

(Volto para as meias, que agora assumem uma nova dimensão embora não tenha encontrado nenhuma fórmula para me tornar uma dona de casa eficaz.)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Um livro perfeito e que faz água na boca

This is Just to Say


I have eaten
the plums
that were in 
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

Wiliam Carlos Williams

Um livro com poemas, pinturas, desenhos e receitas de cozinha? Sim! Foi esse o livro que dei ao meu irmão no aniversário (ele é cozinheiro) e que adorei. Na verdade, agora quero mesmo ter um para mim.
Dele, tirei este poema que vem ilustrado com o quadro do Manet. Nele, a receita de cebolas caramelizadas do Van Gogh deixou-me curiosa e com vontade de experimentar.
Não sou boa cozinheira (na família, esse dom parece caber aos homens), mas gosto de livros de cozinha. E gosto de livros de arte. E gosto de poemas.
Chama-se The Modern Art Cookbook (e o natal está aí à porta!)

Ah, e do facebook, tenho muita inveja desta gente que desenha e cozinha: They Draw and Cook

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Da feira do livro

Este post vem atrasado, claro, mas fazer o quê? Vida de mãe é assim...
Vamos sempre à feira do livro, o que é um atentado às nossas parcas finanças mas é obrigatório por duas razões:
1. a leitura é uma das mais importantes coisas da vida, faço questão que o Manuel viva rodeado de livros; 
2. quero que a feira do livro continue sempre a existir, por isso junto sempre algum dinheiro para esta parte do ano.
Atualmente compro muito mais livros para o Manuel do que para mim. Ainda tenho muitos para ler, alguns peço emprestado, outros vou à biblioteca e, para além disso, o espaço cá em casa começa a escassear... Desta vez trouxe a Granta (ainda não tinha nenhuma e o texto do Salman Rushdie é mesmo bom) e o "Lá fora", do Planeta Tangerina, que é para mim e para ele... 
Para a cria, já podem ver... Os livros do Oliver Jeffers tornaram-se um vício - são tão divertidos! -, também veio um livro para pintar e o fabuloso "Achimpa" (tudo da Orfeu Negro que, para grandes, também tem livros do Rancière). Por acaso, também trouxemos uma história de um príncipe que tem uma irmã pequenina (tanto que eu gostava!).
E assim, resta-me dizer, que viva a ficção!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sem título

"Durante meses as suas palavras atormentaram-me. A ideia de que alguém podia viver para ser meu espectador era estranha. Mas pensar que ele escrevia a minha história era ainda mais inquietante. Tudo o que fazia ganhava uma importância nova, todos os meus actos eram terríveis, porque se transformavam em palavras."

AnaTeresa Pereira, "A Rua sem Nome"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

"Os Enamoramentos", Javier Marías

"É a horrível força do presente, que esmaga o passado tanto quanto o distancia, e que além disso o falseia sem que o passado possa abrir a boca, nem protestar nem contradizê-lo nem refutar-lhe seja o que for."

"Sim, somos todos arremedos de pessoas que quase nunca chegámos a conhecer, de gente que não se aproximou ou passou ao largo na vida daqueles que amamos agora, ou que então se deteve mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto ou só a poeirada dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aqueles que amamos causando-lhes uma ferida mortal que quase sempre acaba por fechar. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esses pouco que se solidificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezas e dos fracassos alheios, e ainda assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos junto de quem resgatámos um dia de um sótão ou um leilão, ou que nos coube em sorte num jogo de cartas ou apanhámos nos desperdícios; inverosimilmente conseguimos convencer-nos dos nossos infelizes namoros, e são muitos os que julgam ver a mão do destino no que não é mais que uma briga de aldeia quando o Verão já agoniza..."

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Clarice, a hora da estrela (post fora do tempo)

Acho que já foi há quase um mês que acabou esta exposição. Fui ver, apesar de ser sobre uma escritora da qual nunca li nada, incrível, não é? A Clarisse foi ficando na lista de livros/autores a ler. Foi ficando e ainda hoje lá permanece. Não deixa de ser estranho ir ver uma exposição assim, deviam proibir a entrada a pessoas como eu (brincadeira).
Conheço gente que leu Clarisse. Por duas vezes me aconteceu um episódio repetido. Alguém que me conhece chega ao pé de mim com ar de caso e diz:
- "Estou a ler um livro, "A Paixão Segundo G.H." Já leste?"
- "Não", respondo.
E quando digo "não" um abismo se abre entre mim e a pessoa, como se já nada mais pudéssemos partilhar. E depois, a leitora olha-me como se toda a sua vida se estivesse a transformar duma forma que eu jamais pudesse entender e a verdade é que muda, de uma maneira subtil mas profunda.
Depois a pessoa desaparece, às vezes para sempre.
É por isso que nunca li este livro. Vou lê-lo este verão.


E a exposição era linda, sim. E a entrevista a Clarisse, com todas as pausas, todas as hesitações e o fumo dos cigarros era maravilhosa...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Munteam & Roseblum vs Douglas Coupland


Eu podia ser a rapariga deste quadro. Podia viver em qualquer um dos quadros de Munteam e Roseblum.
Isso, ou isto:
"Vivemos as nossas vidinhas de periferia; estamos marginalizados e há muitas coisas em que preferimos não participar. Queríamos o silêncio e agora temos silêncio. Chegámos aqui cobertos de feridas e chagas, o cólon tão cheio de nós que pensávamos nunca mais vir a ter um movimento intestinal. O nosso sistema tinha deixado de funcionar, avariado pelo cheiro a máquinas de cópias,apagador, o cheiro a papel de carta e pelo stress interminável de empregos sem objectivo em que se trabalha de má vontade e ninguém nos agradece. Sofríamos de condicionamentos que nos levaram a confundir ir às compras com criatividade, a tomar depressivos e a pensar que alugar um vídeo nos sábados à noite é o bastante. Mas agora que vivemos aqui no deserto as coisas vão muito melhor." 
Douglas Coupland, Geração X

Tão profundamente verdade

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Museu da Inocência


“Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço” (p.614)

Andei, durante mais tempo do que seria suposto, acompanhada pela história de Kemal Bey e Füsun. Numa primeira leitura poderíamos pensar que se trata de um romance demasiado obsessivo. Mas a paixão não é sempre obsessiva? Claro que este livro é uma história de amor, mas é a mais bela história de amor que alguma vez li num livro, vi no cinema, li num poema ou ouvi numa música. É uma história cheia de paciência, de lirismo, de humildade, de inocência, claro.
Numa segunda leitura deparamo-nos com a Istambul dos anos 70, num retrato tão fiel que quase acredito ter lá vivido. A forma como o autor nos vai descrevendo todos os locais por onde passou com a sua amada, ou onde simplesmente viu o seu “fantasma”, as personagens com quem se cruza, os objectos que vai freneticamente coleccionando dão uma lição aos sensaborões museus da cidade que existem por esse mundo fora. O Museu da Inocência poderia muito bem transformar-se no Museu da Cidade de Istambul, ou não fossem as cidades mais que memórias daqueles que as habitam.
Na leitura que fiz deparei-me com o tema que mais me importa: os museus. Na minha tese, a determinada altura, comparo, estabelecendo semelhanças e diferenças, o acto de ler um livro ao de visitar um museu (1). Não pensei que um pudesse completar outro, mas neste sentido Orhan Pamuk é um génio:

Foi nessa noite que compreendi que o meu museu precisava de um catálogo anotado, relatando detalhadamente as histórias de cada uma das suas peças. Sem dúvida isso passaria também a fazer parte da história do meu amor por Füsun e da minha veneração”
(…) um escritor teria de redigir um catálogo da mesma forma que escreveria um romance. Mas, não tendo a menor vontade de tentar escrever eu mesmo tal livro, perguntei-me: quem poderia fazê-lo?
Foi assim que acabei por procurar o estimado Orhan Pamuk, que narrou esta história em meu nome e com a minha aprovação.
” (p. 616)

Os objectos como forma de imortalidade

Não sei se acontece com os outros, mas em mim é comum. Muitas vezes guardo objectos que nada têm de especial porque sei que, com essa recolha, prolongo o momento que nessa altura estou a viver. Há dez anos que me acompanha uma belíssima pedra que apanhei na praia em Barcelona, assim como um pedaço de madeira gasto pelo mar de Sines. São também alguns os objectos que, com carinho, guardo do meu avô Cesário: o chapéu de chuva - negro, grande, pesado e com varetas fortes - e a cafeteira azul onde, todas as noites, preparava o café de cevada para beber no dia seguinte (na noite em que morreu preparou o último, que a minha avó demorou a deitar fora). Também durante nove anos, Kemal Bey vai surripiando objectos que lhe fazem lembrar a sua amada. Lhe fazem lembrar? Mais do que isso, estes objectos prolongam a presença de Füsun e suspeito mesmo que, a determinada altura, os objectos e Füsun são uma e a mesma coisa.
Neste sentido, Orhan Pamuk destroí a sentença de Adorno de que os museus se assemelhariam a mausoléus, porque o museu de Kemal Bey é a sua única hipótese de sobrevivência e também a única forma que tem de amar Füsun.

O poder de um objecto jaz indubitavelmente nas memórias que guarda em si, e também nas vicissitudes da nossa imaginação e das nossas memórias.” (p.397)

Os guardas dos museus

Pamuk é inteligente noutra coisa: ele percebe como os museus e, mais especificamente os objectos, precisam de intermediários para poderem falar com todo o seu potencial ao visitante. Mas não fala de catálogos (pelo menos, não como os entendemos), nem de tabelas ou textos explicativos. Fala de gente, fala dos guardas do museus e sabe que a capacidade de fazer ou não falar um objecto depende do grau de amor (e, por conseguinte, de pertença) que o intermediário sente por ele.

“ – Sabe quem me ensinou que o orgulho ocupa o lugar central num museu, Orhan Bey? –perguntou-me Kemal Bey durante outra sessão nocturna no seu sótão – Os guardas dos museus, obviamente. Onde quer que fosse no mundo, os guardas respondiam a todas as minhas questões com paixão e orgulho. (…) Orhan Bey, se alguém fizer uma pergunta no nosso museu, os guardas deverão relatar a história da colecção Kermal Basmaci, o amor que sinto por Füsun e os significados de que os seus pertences se investem, com esse mesmo ar digno. Por favor ponha isto também no seu livro.” (p. 624)

O elogio dos pequenos museus

Numa altura em que (ainda) predomina o gosto por grandes museus – por vezes demasiado grandes e iguais entre si, em muito devido à disseminação do modelo “cubo branco” – Orhan Pamuk elogia a personalidade e originalidade dos pequenos Museus, deixando-nos cheios de inveja porque, à altura da sua morte, o protagonista da história tinha visitado 5723 museus (2) dos quais falava assim:

Senti um enorme consolo, esse mesmo entendimento profundo, ao vaguear pelos museus. Não me refiro ao Louvre ou ao Beaubourg, ou a outros desse tipo, ostentatórios e cheios de gente, refiro-me agora aos muitos museus vazios que encontrei em Paris, às colecções que nunca ninguém visita. (…) Sempre que passeava a sós por museus como aquele [Jacquemart-André, em Paris], sentia-me melhor. Descobria uma sala nos fundos, longe do olhar dos guardas, sempre muito atentos a cada passo que eu dava; com os sons do trânsito e das obras e o ruído urbano que ali entravam vindos do exterior, era como se tivesse entrado num domínio à parte, que coexistia com as movimentadas ruas da cidade mas que não lhe pertencia; e, na sinistra intemporalidade daquele outro universo, encontrava consolo.” (p. 596)

(1) “Walking through a museum is like reading a book” Mieke Bal, Double exposures
(2) entre os quais: o Museu Bagatti Valsecchi em Milão, o Museu Internacional da Perfumaria no Sul de França, o Museu da Vida Romântica em Paris, o Museu de Insectos e Borboletas La Ceiba nas Honduras, o Museu da Medicina Chinesa em Hangzhou, o Museu-Atelier de Paul Cézzane em Aix-en-Provence, o Museu Florence Nightingale, em Londres (onde também visita o Soane’s Museum) e no nosso Museu Romântico da cidade do Porto (na página 624).

Nota minha:
Por vezes, enquanto lia este livro, o meu filho de dez meses entretinha-se a meu lado com o marcador que reproduz a imagem da capa. Por isso ficou todo amarfalhado e poderia também ele fazer parte do meu “museu da inocência”.
(ver capítulo 69, "Por vezes", pp. 483-490)

domingo, 20 de junho de 2010

Ele


Gosta de brincar com as coisas mais improváveis (escoadores, molas, rolos de papel higiénico vazios, caixas de ovos),
já tem um dentinho,
anda nos treinos para gatinhar.

Ontem, quando passámos numa livraria mesmo aqui ao pé de casa, comprei-lhe o belíssimo livro "Branco e Negro: Os meus animais"

Entretanto, na impossibilidade de comprar uma caríssima cadeira tripp trapp, descobri umas muito mais baratas e igualmente lindíssimas (e evolutivas) aqui.

domingo, 23 de maio de 2010

De hoje


Mesmo no último dia, ao fim da tarde, ainda conseguimos ir à feira do livro.
Resultado:
um livro para a mãe (O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk) e quatro para o filho!!!

Na fotografia: Onde? Frederico de Leo Lionni (fiquei arrependida de não os ter comprado todos)
Como nos fizemos sócios da APCC ainda ganhámos 3 livros com belíssimas ilustrações e textos:
- O cão e o gato, António Torrado/André Letria
- O menino e a nuvem, Luísa Ducla Soares/Raffaello Bergonse
- O voo do golfinho, Ondjaki/Danuta Wojciechoswska

E ainda, para a mãe e para o filho, duas agendas do Planeta Tangerina.
Faltou comprar O Primeiro Gomo da Tangerina.


Outras coisas:
há uma semana jantei com os meus antigos colegas da livraria Castil, o meu primeiro emprego. Gostei tanto de revêr toda a gente. Às vezes tenho saudades dessa vida de livreira: os livros novos a chegarem, as conversas com os clientes mais assíduos, a azáfama do Natal... Essa experiência foi fundamental na minha formação como pessoa, tive muita sorte em poder passar por isso.
Mais ou menos parecido, às vezes passo por aqui (mas ainda não fui lá fisicamente)


Ah, e odiei o espaço da Leya na feira, tão barulhento, com funcionários a mais a distribuirem coisas desinteressantes e uma moça a contar histórias ao microfone. Bah!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Por falar em livros...


... gostamos muito (mesmo muito) do Viva o Peixinho, da Caminho

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Passear


Este ano prometi a mim mesma que iria passear mais, mas confesso que não tem sido fácil. O trabalho, o miúdo, a casa, o mau tempo... No passado fim-de-semana, com visitas cá por casa, lá conseguimos ir dar umas vaoltinhas aqui por perto: no Sábado, palácio Beau Séjour e lanche no Califa, no Domingo os sempre fabulosos jardins da Gulbenkian (com as famílias reunidas).

"Tudo parecia demasiado bom para ser verdade. O Toupeira continuou a caminhar, de um lado para o outro, através do prado, ao longo das sebes, cruzando matas, vendo por todo o lado os pássaros a fazer o ninho, as flores a dar rebentos, as folhas a despontar - tudo era feliz, tudo estava a desenvolver-se, todos aqueles seres se viam muito ocupados. E sem que a incómoda consciência lhe pesasse, sussurrando-lhe "Tens de caiar!", só conseguia pensar como era divertido ser ele o único bicho ocioso no meio de tanta gente atarefada. Pensando bem, o melhor que as férias têm talvez não seja tanto o podermos descansar, mas vermos as outras pessoas numa azáfama."
Kenneth Grahame, O Vento nos Salgueiros (na belíssima edição da Tinta da China)

domingo, 6 de setembro de 2009

O tempo, Tarantino e "Os de cima e os de baixo"



Com o Manuel a começar a querer espreitar à porta do mundo é inevitável que comece a pensar nalgumas coisas que vão passar a ser menos frequentes. É verdade que temos uma vida atarefada, mas de vez em quando conseguimos ir ao cinema... Vou sentir a falta disso, ainda por cima quando não consigo ver filmes em casa. Cinema é uma sala grande, escura, com um ecrã do tamanho do mundo ( e fujo a sete pés dos sítios onde existem pipocas). Cinema não é a minha sala, nem a minha televisão. Ainda queria ir à cinemateca, mas na Sexta ficámo-nos pelo Tarantino que está cada vez melhor (assim como os dois protagonistas masculinos: Brad Pitt e Christoph Waltz). Impossível de perder.
Antes disso passámos pela livraria do Monumental e apaixonei-me por um livro da Kalandraka: Os de cima e os de baixo. Ultimamente acho que gasto mais dinheiro em livros infantis, do que para adultos: é que as ilustrações são mesmo irresistíveis!! Mas antes de dar entrada na MAC, onde espero que o meu bebé nasça rápido e saudável, ainda quero comprar Walden, ou a Vida nos Bosques - acho que deve ser bom para os primeiros meses de mamã.
A bebé da Ana já nasceu. E tu Manuel? Está na altura de começares a pensar nisso...