sábado, 17 de maio de 2008

Três livros na minha mala


Ontem, por acaso ou talvez não, andei com estes três livros atrás. Da Ana Teresa Pereira já sabiam. Há livros que levam a outros. Ibsen. Este levar-me-ia a Ibsen. Mas por questões práticas, não levou. Depois de ter levantado um conjunto de DVd's muito em conta com as óperas de Mozart, pelas Marionetas de Salzburgo (ossos do ofício), lá fui à secção de teatro à procura de Ibsen ou talvez das peças de Henry James. Ibsen era caro e Henry James nem existia, mas havia um livro perdido... Um livrinho de teatro (como se chama a colecção) de José Maria Vieira Mendes. Como já tinha visto "Onde vamos morar" (obrigada, mãe), comprei. Não me arrependi, mas confesso que sou uma fraca leitora do teatro e talvez pouco exigente. Mas também talvez não...

"GABRIELA Não te posso dizer.
Não te posso responder. Não sei.
Não faças perguntas. Não vale a pena.
Não olhes assim para mim.
Não digas que não estavas à espera. Nâo digas nada.
Não olhes assim para mim. Porque é que estás a olhar assim para mim?
Não fiques aí parado.
Não, não me toques. Não vale a pena.
Não tenho pena de ti.
Não estou a olhar para ti. Não te estou a ouvir, não te vou ouvir.
Vais ver que não custa nada. Não digas nada.
Já não estou aqui. Não vala a pena. Já não estou aqui.
Não sei quando vou voltar. Não sei se vou. Não sei se vou voltar.
também não interessa. Não faças essa cara.
Já está a ficar tarde. Que horas são? Já está a ficar tarde.
Tenho de me ir embora. O comboio. Depois fica escuro.
Tenho de ir já.
Não digas nada.
Ficas a tomar conta do teu pai, ficas a tomar conta de ti,
ficas sozinho
eu não me importo
não tenho pena, não tenho pena nenhuma e tu sabes isso.
porque é que estás a fazer essa cara? sabes isso.
Não me interessas. Deixaste de me interessar. Já há muito
tempo. Tiraste-me o apetite, acordo enjoada, não consigo
dormir, sabes isso
e já não há nada
e fazes-me triste e não consigo olhar para ti
não consigo ouvir-te nem quero que faças essa cara
não vale a pena. Arranja outra pessoa, não sei, faz qualquer coisa.
A mim não me interessa. Não sei se volto. Se calhar não volto.
Já está a ficar tarde. tenho de ir.
Não foi tudo mau. Se calhar devia dizer isto. Não foi tudo mau.
Não tenho grande vontade de dizer não foi tudo mau, mas se calhar devia.
Já disse. Mas tu fazes-me mal.
Se calhar também vou ter saudades.
Mas tu não percebes. Ou então percebees.
O mais provável é perceberes. Mas não dizes. Nunca disseste.
VÍTOR Cala-te
"

Ele escreve isto. E só tem menos ano que eu! Mas parece que é verdade, que é assim.

Quanto ao "Ser feliz é imoral?", é um livro que já tenho há seis anos e que de vez em quando volto a respigar. Agora, e muito a propósito, calhou isto:

"Sobre a catarse, o mais vulgarizado critério defende que a virtude catártica se exerce sobre os sentimentos e as emoções de terror e de piedade, mas não é nunca uma purga, porque, se assim fosse, a tragédia apenas serviria para eliminar os próprios efeitos. Porventura poderá haver, na catarse, uma purificação. Um outro efeito em potência na tragédia, e viável pela catarse, é o efeito criador e regenerador. É uma causa-efeito de constituição da comunidade. A este propósito, as obras do encenador jorge Silva Melo com os Artistas Unidos (...) são exemplares. Através delas, as comunidades vão-se constituindo a partir do que é potência em cada um dos sujeitos e que se pode tornar aglomerador de grupos, segundo uma comunicação a nível emotivo e afectivo."

Hoje à noite vou ver isto: KAMP.
Se estiverem deprimidos podem ver o vídeo do post de baixo.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Dance With Me - O que eu oiço, em repeat

Oiço isto em repeat, parte 2

Nouvelle Vague, Dance with me

Let's dance little stranger
Show me secret sins
Love can be like bondage
Seduce me once again

Burning like an angel
Who has heaven in reprieve
Burning like the voodoo man
With devils on his sleeve

Won't you dance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility

Like an apparition
You don't seem real at all
Like a premonition
Of curses on my soul

The way I want to love you
Well it could be against the law
I've seen you in a thousand minds
You've made the angels fall

Won't you dance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility

Come on little stranger
There's only one last dance
Soon the music's over
Let's give it one more chance

Won't you dance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility

Take a chance with me
In my world of fantasy
Won't you dance with me
Ritual fertility

"Certas coisas, mais vale recordá-las..."

Por causa da tese fui dar com um catálogo da Ângela Ferreira. É de uma exposição no Museu do Chiado, em 2003, com textos de Pedro Lapa e Andrew Renton e chama-se: "Ângela Ferreira, Em Sítio Algum". Andrew Renton (que também é o comissário da exposição "Come, come, come into my world", da Ellipse) publica no catálogo alguns textos/cartas que, na altura, trocou com a artista. Gostei deles.

"Certas coisas, mais vale recordá-las... Digo isto da mesma maneira que costumamos dizer que certas coisas, mais vale esquecê-las; poderíamos estar a falar de história, ou coisa assim. Mas certas coisas ganham em ser recordadas. Ou seja, em serem mais bem recordadas. Melhoradas pelo esquecimento.
O esquecimento permite um tipo de recontar que reclama a posse de um passado puramente em termos de presente. É uma história ficcional, sim, mas que constantemente se reconstitui, em nome de um objecto perdido."

segunda-feira, 5 de maio de 2008

um livro...


Fui comprar um livro da Ana Teresa Pereira. Não é dos últimos. "O Mar de Gelo" foi publicado em 2005. Tem na capa um quadro de Friedrich, com o mesmo nome do livro. É também o quadro que António Pinto Ribeiro via como sendo a imagem que anunciava o século XX (no blogue do "Estado do Mundo"). As capas dos livros da Ana Teresa Pereira têm sempre quadros dos meus pintores favoritos: os pré-rafaelitas, Rothko. Os livros dela também são os meus favoritos.
Há sempre uma mulher, um homem, uma casa meio ao abandono com um jardim que cresce de forma selvagem, gatos, filmes a preto e branco, tangerinas e queijo, tangerinas com queijo numa toalha aos quadrados vermelhos e brancos, cheiro a café, tardes passadas na Tate (em frente aos quadros que são as capas dos livros), concertos em igrejas góticas, alfarrabistas e lojas com mapas velhos. Mapas de sítios que já não existem. Se eu vivesse dentro de um livro... seria dentro de um livro destes. E não são livros felizes. Alguém pode pode morrer ou desencontrar-se. Desencontrar-se e ficar à espera. Há sempre um homem que se chama Tom. Deve ser verdadeiro porque este livro é dedicado a ele.
E começa com uma frase de Elizabeth Bowen:
"WE ARE MINOR IN EVERYTHING BUT OUR PASSIONS."

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Eu vejo tudo enquadrado


"Enquadrar 1 meter em quadro; 2 emoldurar; encaixilhar; 3 tornar quadrado; 4 integrar em determinado meio ou contexto; FOTOGRAFIA, CINEMA posicionar no visor da cãmara para filmar ou fotografar" Dic. de Português, Porto Ed.

Penso neste post há algum tempo. Desde que fui ao Porto.
A arquitectura consegue, muitas vezes e de maneira surpreendente, tornar-se uma arte maior. Não consigo lembrar-me, ou perceber, desde quando é que começámos a sentir a necessidade (se é que foi "necessidade")de escolhermos pequenos pedaços do mundo para destacar do resto. Escolher um fragmento de uma paisagem a pintar, uma parte de uma cidade a fotografar ou a filmar.
Passa-me pela cabeça que a maior invenção da história da arte possa ter sido a moldura. Essa mesma moldura grande, pesada, trabalhada e dourada dos séculos XVIII e XIX. Essa moldura que punha precisamente em destaque o que merecia ser visto, ser olhado. O próprio pintor só existia em função da moldura, do enquadramento. Só aí, em pequenos fragmentos, criteriosamente escolhidos, poderia merecer ser pintado o que o artista pretendia destacar. Olhem Friedrich!
E Siza sabe isso. Acho que ele sabe. É preciso escolher bem o sítio das janelas, esse lugar fronteira entre o nosso mundo e o dos outros. A arquitectura é também ela enquadramento, embora só alguns saibam.
Como seria bom poder escolher sempre ver o mundo enquadrado!
Talvez seja este, afinal, o tema da canção de Adriana Calcanhoto, "Esquadros":

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

terça-feira, 8 de abril de 2008

Hoje o dia está assim...


... infelizmente em todos os aspectos.
(seria bom conseguir entregar o irs pela net, se soubesse todos os códigos que eles acham que devemos saber de cor.)