quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A insustentável repetição do quotidiano

Às vezes sinto-me assim, demasiado "atrapada" pela realidade. Não me lembro do termo correcto em português (e nem sequer sei porque o uso em espanhol, vivi em Barcelona menos de um ano e não aprendi castelhano nem catalão). Talvez seja "encurralada", mas é uma palavra feia...
Tenho quase uma vida de sonho: um emprego que gosto, na área que estudei, um filho para lá de maravilhoso e um marido de fazer inveja. Do que sonhava para mim em criança só me falta um quintal e um cão. E no entanto... 
Às vezes parece-me tudo tão demasiadamente igual, tudo tão aborrecido... E sim, eu sei que há maneiras de fazer com que a nossa vida seja fantástica; dezenas de livros, centenas de blogues e milhares de conselhos, mas então? A vida não é um livro de instruções.
Hoje sinto-me uma pessoa chata e desinteressante. 
Quotidiana. 
Superficial.
E nem sequer bonita.
Ou talvez seja só o mundo à minha volta.

(Vou temperar os bifes para o jantar.)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Para tomar o aspecto de uma fénix


Fiz uma contratura muscular na aula de sexta. 
A casa tornou-se um caos que não consigo resolver. 
Os rapazes não estão cá.
À falta de conseguir fazer melhor, sentei-me a emparelhar e coser meias. 
Olhei para o lado e vi o livro que tirei da estante há mais de um mês. Comprei-o no primeiro ano de licenciatura, em 1995.

"Fórmula para tomar o aspecto de uma fénix.

Palavras ditas por N.:

Eu voei como um deus primordial, eu vim à existência como Khepri, eu cresci como uma planta, eu protegi-me com uma carapaça como uma tartaruga. Eu sou o fruto de cada deus. Eu sou a sétima destas sete uraeus que se encontram no Ocidente, o Hórus que se torna luminoso a ele próprio, este deus (que julgou) contra Set, o Tot que se colocou no meio deles neste julgamento do chefe de Letópolis com as Almas de Heliópolis, a água que correu entre elas. Eu vim neste dia, tendo aparecido na procissão dos deuses. Eu sou khonsu, aquele que se opõe aos senhores.

Quem conheça esta fórmula sendo puro, pode sair à luz do dia depois da sua morte e tomar os aspectos que o seu coração deseja tomar; (pode) estar entre os seguidores de Uen-nefer, alimentar-se dos alimentos de Osíris, ter a oferenda funerária, ver o disco solar, ser próspero sobre a terra junto de Ré, é justificado junto de Osíris, e nenhum mal tem poder sobre ele. Isto foi verdadeiramente eficaz milhões de vezes."
O livro dos mortos do Antigo Egipto, Assírio & Alvim 

(Volto para as meias, que agora assumem uma nova dimensão embora não tenha encontrado nenhuma fórmula para me tornar uma dona de casa eficaz.)

sábado, 29 de novembro de 2014

Compras (por enquanto para nós)

Este mês não dá para todas as compras que gostaríamos de fazer, mas não resistimos a ir espreitar o showroom do Perdi o fio à meada (http://perdi-o-fio-a-meada.blogspot.pt), aqui mesmo pertinho de casa. O espaço estava animado e o Manuel demorou tempos a fazer um desenho que quis trazer para casa e que colámos com a fita cola colorida do Made in Paper (eu fiquei apaixonada pelos carimbos -http://madeinpaper.bigcartel.com/product/alphabet-stamp-boxes-hand-drawing - , mas fica para a próxima). Também trouxemos para casa mais um presépio, desta vez em forma de mobile feito pela Ana Ventura - http://papeisportodolado.blogspot.pt - (aposto que a Cavaca não tem este).
E para além disto tudo, hoje foi mesmo um dia especial, porque o Manuel deu o seu primeiro concerto!

(A aplicação não dá para por links, por isso teve mesmo de ser assim).

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Os Museus são como as cerejas

"Mãe, faz-se assim: primeiro tira-se o sangue todo pelo nariz, com uma agulha, depois tira-se o cérebro, a seguir corta-se a barriga e tira-se tudo lá de dentro, menos o coração. Como está tudo podre e cheira muito mal, põe-se perfume. Por cima. para dar sorte, põem-se os escaravelhos."
Arregalei os olhos, fiquei calada e pensei: "Tenho um Dexter de 5 anos anos a viver em minha casa."
Mas não pude resmungar, a culpa foi minha que o levai a uma actividade sobro o antigo Egipto na Gulbenkian. E ele, com aquele ar tão sério e aquela conversa macabra até teve graça!
Desde aí não se cala com as múmias e os deuses egípcios e, como a informação histórica já é tanta, a todo o tempo faz perguntas sobre a cronologia: "Mas foi antes ou depois dos homens das cavernas?", "Antes ou depois de Jesus?", "Antes ou depois do Dartacão?" (Há-de ser sempre Dartacão e nunca, jamais, D'Artagnan.)
E explicar-lhe onde encaixava, cronologicamente, a acção do filme "Como Treinares o teu Dragão". Pois, até eu fico mais inteligente com isto tudo (e com dor de cabeça também, confesso.)
Mas, bem, voltando aos museus... Sempre acreditei que os museus funcionam de modo cumulativo: quem vê um quer ver dois, quem vê dois, está perdido para todo o sempre! Assim aconteceu connosco pais (e especialmente comigo, que sou museóloga) e assim está a repetir-se com ele em modo muito mais rápido. Visitar museus é conhecer o mundo e a Humanidade, é abrir uma janela e querer abrir muitas, muitas mais. É não parar de fazer perguntas. E é tão bom!
Por isso, claro, este fim de semana lá fomos ao Museu Nacional de Arquelogia onde, depois do segurança lhe ter dito à porta "Cuidado, não acordes a múmia! Ela é muito chata!", entrou a medo na sala dos Tesouros Egípcios. E gostou ele. E gostámos nós.

E assim confirmo, como mãe, educadora e profissional de museus, uma das minhas frases favoritas:
In the Bible, we can find the famous statement that there is nothing new under the sun. That is, of course true. But there is no sun inside the museum. And that is probably why the museum always was – and remains – the only possible site of innovation." Boris Groys, The Art Power

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Get Bored


"This is the cultural pathology of our time: If we stopped doing what we do, we might not know who we are."
(ou: "Preciso mesmo de ir para a beira de um riacho")

Ando constantemente nisto, à procura de mim própria para além da profissional a da mãe que sou. Se não fosse isso, quem seria eu?

Imagem do Maurice Sendak, livro "Open House for Butterflies", e artigo que me fez pensar do Brain Pickings.

Nota da autora:
- Quando era pequena, algumas das pessoas da família perguntavam-me se eu estava a "pensar na morte da bezerra". Há pessoas que não sabem bem o significado da palavra pensar.
- Era, na altura - agora não tenho tempo - muito esimesmada (e esta é uma palavra que eu adoro e que, de vez em quando, me define).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

The inner self (o meu?)

Se me perguntarem quem sou, hoje em dia, pouco mais sei responder para além de: "Sou mãe de um rapaz de 5 anos e trabalho num museu."
Sim, é verdade, pouco mais do que isto e dos dados que constam do cartão de cidadão.
Não sei onde me perdi, mas tenho a sensação que deixei o meu "eu" algures, noutro tempo, noutro lugar. E para ser sincera, nem sequer tenho planos para o "eu" futuro que por aí possa aparecer.
Triste, não é?
Claro que posso sempre dar a desculpa da maternidade. Afinal de contas, quando nasce um bebé, o nosso centro de gravidade muda: deixa de estar dentro de nós, para passar a estar numa pessoa que, apesar de ser nosso/a filho/a, não deixa de ser outra pessoa. E o meu dia-a-dia perde-se no tempo em que sou "a profissional" e o tempo em que sou "a mãe". Não existe mais nada para além disso.
Não sei quem sou, mas sei que isso não é novo. Ah, os filósofos gregos, claro!

Por isso, hoje, fez muito sentido para mim ler isto:

"To love is to live. Live in love with yourself.

Before we even begin… let’s get one thing straight. To love yourself… to honor YOU as you would any other… takes self-respect and patience.  Loving yourself requires appreciation for the mind, body, and spirit you embody on this earth. To fall in love with “you” is not equated with promoting ego, conceit, or arrogance. Ok? Ok….

First love yourself, then others will love you. Love your mind, the outstanding accomplishments and failures that help you grow. Love your body, the exquisite beauty and faults that make it so. Love your soul, the enthusiastic happiness and the splendid release of sorrow.

Embrace mind, body and soul within both arms…spread wide enough to envelop the world within your hands… dance when you feel like dancing, cry when you feel like crying. Express the love you feel within yourself to help the self-love of others prevail – and while it may be the most terrifying journey, to accept yourself as you are in its entirety, it will make loving others, in all their differences, in all their shapes and sizes… as natural as breathing.

Yes. Buy yourself flowers. Embrace yourself mentally in a hug… laugh in the moments you need it most from another…. go on a vacation by yourself ….. go out dancing solo…. sit at a café all day long writing and reading without needing another to make you feel comfortable. Self-love is complete acceptance of yourself. To know who you are, where you have come from, and all the places you still have to go… own it all and stand proud."

Daqui: Freepeople (donde também vem a fotografia)

Agora, só me falta aprender a ter tempo para mim.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

1, 2, 3, 4, 5 (e uma festa de dinossauros)

Aos 5 anos, acho que ele gosta de tudo. Parece que não há nada que não lhe possa interessar, desde fósseis, a dinossauros, cozinha, arte, futebol, sei lá... Faz perguntas engraçadas como, "Mas, mãe, as múmias estão vivas ou mortas?"
Quando sai da escola ainda pede colo. Eu ainda dou (e tenho tantas saudades da altura em que ele cabia no sling).
A meio da noite ainda grita: "Mããããe!", elevando o volume até eu chegar efectivamente lá.
Na manhã em que fez 5 anos disse-lhe "Parabéns, filho!" e ele respondeu "Parabéns, mãe!"
Dizemos muitas vezes "amo-te", mas também nos zangamos e, claro, pedimos desculpa.
Pergunto-me mil vezes se estou a fazer bem ou mal. Provavelmente nunca irei saber, porque se calhar não há "bem" nem "mal"... Quem leu Arno Gruen sabe bem do poder das mães, seja ele consciente ou inconsciente. Talvez não haja nada a fazer, só estar lá, para o que der e vier.
O que eu quero mesmo é que ele seja
livre
feliz
inteiro
(inteligente e culto, se der)

Perguntei-lhe sobre a festa. Disse que queria de dinossauros, para meu espanto, porque até aí o assunto parecia não lhe interessar.
Lá fizemos os dinossauros, eu decorei nomes inimagináveis, ele pintou uns quantos. O meu maravilhoso irmão cozinheiro fez uma dino-melancia cujo único defeito era ser efémera. O meu outro irmão ajudou a tomar conta dos putos (vêem, como os irmãos são importantes?) Convidámos 10 meninos. Nasceram dinossauros lá em casa e agora, todos os fins-de-semana, a minha casa é um campo de arqueologia (graças aos brinquedos da Science4you).