segunda-feira, 4 de maio de 2015

Siri Hustvedt


"Toda a história que contamos sobre nós mesmos só pode ser contada no pretérito. É um recuo no tempo do ponto de vista em que estamos agora, quando já não somos mais os actores da história, mas seus espectadores que resolveram falar. A trilha atrás de nós às vezes está marcada por pedrinhas, como as que João e Maria deixam atrás de si em sua primeira ida à floresta. Outras vezes, o rastro desaparece, porque os passarinhos voaram até lá e comeram todos os pedacinhos de pão ao amanhecer. A história sobrevoa as lacunas, preenchendo-as com "e" ou um "então". Fiz isso nestas páginas para continuar numa trilha que sei que é interrompida por fossos ocos e vários buracos profundos. Escrever é uma forma de rastrear minha fome, e a fome nada mais é que um vazio."*

Não conheceria esta escritora não fosse ter uma família culta que me fala e muitas vezes me empresta livros bons.
Sendo uma obra desconhecida, não sabia muito bem o que me esperava quando comecei a ler "Aquilo que eu Amava", mas o meu interesse foi crescendo à medida que avançava na leitura e que a trama do livro se adensava.
A história gira em volta da vida de dois casais amigos. O narrador é historiador de arte e escreve muitas vezes sobre o seu amigo pintor. As suas duas mulheres têm filhos ao mesmo tempo, aparecendo posteriormente uma terceira personagem feminina que casa com o pintor. Os filhos, a vida quotidiana destes casais que vivem no mesmo prédio, as questões académicas e filosóficas ligadas ao seu percurso profissional (pintura, história da arte, psicologia, poesia), tudo cabe neste livro, como cabe na nossa vida e como, estranhamente, acabará por fazer também parte da nossa morte.
Fiquei com vontade de ler todos os livros dela!

Para saber mais: Siri Hustvedt 

(* Li a versão brasileira, que transcrevi aqui)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Galeano, Eduardo

"O papagaio que brotou da pena
teve penas vermelhas do fogo
e penas azuis do céu
e penas verdes das folhas da árvore
e um bico duro de pedra e dourado de laranja
e teve palavras humanas para dizer
e água de lágrimas para beber e refrescar-se
e teve uma janela aberta para escapar
e voou na rajada de vento."
in História da Ressureição do Papagaio

É um dos livros mais bonitos que temos cá em casa. E, como quase todos os livros que cabem na categoria de "bonitos", é do Manuel. Gosto muito de o ler e a educadora do ano passado chegou a trabalhar com esta história que foi recontada por Eduardo Galeano a partir de uma lenda do Nordeste brasileiro.
Está editado pela Kalandraka e as ilustrações são de António Santos.
Do Eduardo Galeano, existem muitos outros livros para ler e até esta fantástica história dos abraços.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Flores cá de casa

Apanhámos no caminho da escola para casa e fizemos colagens com papel autocolante. Tornou-se um vício.
Há muitas formas de fazer jardins, não há?

terça-feira, 21 de abril de 2015

Flores que teimam em crescer onde ninguém as mandou


Eu sei que faz mal aos edifícios, mas acho esta força da natureza, de brotar assim em qualquer sítio, sempre fantástica (e poética).

terça-feira, 14 de abril de 2015

A quotidiana sopa

De agrião
De espinafres
De couve-flor (cosida em água e leite)
De alho-francês
De coentros
De tudo e mais alguma coisa...

É do que fazemos mais cá em casa e também é do que comemos mais.
Os legumes vêem quase sempre dá mercearia mais próxima.
As cores das sopas ficam sempre bonitas.

Não percebo porque é que chamar sopeira a alguém é um insulto. 
Sopeiras de todo o mundo, uni-vos!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Quando toda a cidade pode ser um jardim


Quando era pequena vivia num rés-do-chão com dois canteiros em frente à janela do meu quarto. O mais pequeno, mesmo debaixo da janela, pertencia à casa e um dos meus passatempos favoritos era regá-lo. No maior, um metro ou dois a seguir, crescia uma laranjeira de que ainda hoje tenho saudades.

Ainda não desisti de um dia vir a ter um singelo quintal. Enquanto esse dia não chega, vou espalhando vasos pela casa e pelo vão das escadas.
Mas, um dos meus livros favoritos - O Jardim Curioso - ensinou-me que toda a cidade pode ser um jardim. Se calhar, até pode o nosso jardim. Por isso, hoje fizemos bombas de sementes!  É uma porcaria maravilhosa e os miúdos também precisam de mexer em terra e lama... (eu sei, as fotografias não são bonitas!)
Se, daqui a um mês ou dois,virem girassóis por aí pelas redondezas, fomos nós que os semeámos. (O pinheiro que plantámos há duas semanas também já está a crescer!)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Hórus, filho de Osíris


É mais ou menos isto: na mitologia egípcia, o Deus Osíris foi morto pelo seu irmão Seth que o esquartejou em 14 pedaços. Hórus é seu filho, embora Ísis, a mãe, tenha sido estranhamente fecundada depois da morte de Osíris: foi ela que reuniu todos os seus pedaços e o fez ressuscitar, mas faltou à desgraçada encontrar-lhe o pénis.
O Hórus cá de casa quis sentir-se na pele do pai e fez-me perceber como é que deve ser o papel daqueles arqueólogos a juntar os cacos todos. Safei-me bem, mas estive para deitar tudo para o lixo.
Pus o Hórus na prateleira mais alta - o Manuel ainda não sabe de nada e lá no cimo as cicatrizes notam-se menos.