terça-feira, 4 de agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Da quietude






Fomos à casa dos meus avós. Melhor, fomos à casa dos meus bisavós, que já deve estar na família há cerca de 100 anos. É bom ter uma casa assim, por onde passaram gerações e onde nos sentimos pertencer. A casa fica no baixo Alentejo raiano, onde nesta altura reina o calor abafado e uma maravilhosa cor dourada.
Na ponta da aldeia, é a única casa da rua com porta de madeira. Felizmente, a minha família foi inteligente nisto, tentando manter todas as características da construção tradicional da zona. A maioria das pessoas não o fez e tenho sentido, por esse país fora, que deveria haver muito mais sensibilização para as técnicas de construção tradicionais. De resto, aldeia vai-se desvirtuando. No caso do Baixo Alentejo, muitas destas características de construção são ainda herança da ocupação islâmica. Apesar do Alentejo ser muito quente, a casa continua fresca todo o ano graças às paredes grossas, tetos altos e quase ausência de janelas. Tenho a sensação que os nossos antepassados, ainda que intuitivamente, sabiam construir melhor que os engenheiros e arquitetos de hoje.

No interior da casa, estão ainda presentes os objectos dos meus bisavós. As camas, as mesas, os candeeiros a óleo, as bilhas que serviam para guardar a água do poço. Gosto de tocar neles, de imaginar como seriam usados quotidianamente, como seria a vida daquela casa com seis crianças e como terá sido a infância do meu avô.
Fico a pensar: e a mim, que objectos me sobreviverão? Que testemunhos da minha existência deixarão pistas daquilo que sou? Ou ficarão apenas memórias virtuais, como este blogue ou fotografias perdidas nalgum computador?
Os meus bisas, Catarina e António, haviam de gostar de saber que o trisneto anda por ali e haviam de repetir, como o meu avô fez connosco: "Não se abeirem do poço." E como, mais uma vez repetiu, quando soube que eu levava o Manuel: "Não deixes o menino ir para o pé do poço." O poço, fonte de água fresca e límpida que desde sempre se bebeu na família.
Soube desde o primeiro momento que este é o sítio a que pertenço. Devia ter uns seis ou sete anos da primeira vez que ali fui. Lembro-me que a aldeia não tinha luz elétrica e de ter percebido de como a noite era escura. Lembro-me de ter ido ao rio Chança e de ter tido a sensação de que conhecia aquele lugar há séculos, como se uma espécie de memória genética tivesse desenhado aquele mapa em mim.
Dos verões da adolescência que ali passei, lembro-me dos pastores e dos seus rebanhos, das conversas à noite na soleira da porta e dos meus avós a cantarem à desgarrada.
Há muito tempo que não ia lá e soube bem voltar à Tapada da Mina, ao complexo das Minas de São Domingos - sempre tão cinematográfico -, ao rio Chança, onde somos sempre os únicos a estar. Sabe sempre bem voltar ao sítios a que pertencemos e tentar perpetuar essa fantástica memória que os locais e os objectos guardam de uma forma única e indelével. 
Um dia, ouvi o Pedro Rosa Mendes dizer que o Alentejo é um estado de alma. Nada podia ser mais verdade.

Os átomos de infantilidade

"É preciso pensar o devir-criança enquanto átomos de infantilidade, que produzem uma política infantil (desta vez, sim) molecular, que se insinuam nos afrontamentos molares de adultos e crianças..."
S. Corazza, Infancionática..., 2003, p. 101

Daqui, deste texto de Walter Omar Kohan

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Masterchef... Eu?

"Mãe, sabes aquele programa do Masterchef? Eles vão lá e aprendem com os professores, que ensinam e ajudam."
"Sim," - Respondi eu, ingenuamente.
"Sabes, mãe, tu podias ir fazer uma espécie de Masterchef... Com a avó Helena, ou outra avó qualquer."

Isto, depois de, há uma semana eu lhe ter feito a tão desejada lasanha e ele me ter dito: "A da Carla é melhor." (sendo que a "Carla" é a cozinheira da escola, a mim pereceu-me uma ofensa!)

E assim, se deita abaixo todo o imenso esforço que tenho feito para ser uma cozinheira razoável. Infelizmente pareço não ter herdado os genes da minha avó Clotilde, que passaram todos para o meu irmão - esse sim, cozinheiro de profissão.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Dança, quando chegares ao fim

Devia iniciar uma rubrica chamada, "Dança quando chegares ao fim" - que é um título roubado a um maravilhoso livro do Richard Zimler.
Durante algum tempo fui a aulas de dança à Sexta feira, mas definitivamente zumba não é a minha praia.
Assim, o melhor mesmo é pôr uma banda sonora cá em casa, não acham?
Para começar este maravilho e divertido vídeo dos Kings of Convenience

quarta-feira, 24 de junho de 2015

BCN

Encontrei este blogue e dei por mim a morrer de saudades de Barcelona e de ouvir falar catalão.
A verdade é que já passaram 15 anos (e fazer Erasmus em BCN era tão anos 90!) e nunca mais voltei.
Tenho alguma alergia a essa coisa do "turismo" e para mim Barcelona faz também parte do meu corpo, embora só lá tenha vivido 9 meses.
Por isso, nunca voltei. Tenho medo de voltar porque aquela cidade já não é a minha.
Ainda não sei, se devíamos ter ficado ou não.  Porque no fim do ano, afinal já éramos dois portugueses apaixonados em Barcelona.
Não ficámos. Não voltámos. Nem tivemos coragem suficiente para ir para a Irlanda trabalhar para um qualquer campo arqueológico.
Fomos ficando por aqui.
Mas agora, estou a morrer de saudades de Barcelona.
(Ou, se calhar, estou só a morrer de saudades de ter, ainda, tantas possibilidades à minha frente como tinha nessa altura.)

terça-feira, 23 de junho de 2015

O estranhamento do corpo

Diz-me que tenho rugas na testa.
Enumera, apontando com os pequenos dedos, os inúmeros sinais que tenho no corpo.
Pede para eu me rir ao espelho, só para ver os traços marcados nos cantos dos meus olhos.
Depois, olha-me com ternura, ou com pena, ou talvez com os dois.

 Eu envelhecerei, sim. De forma lenta, espero.