segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

"Mãe, fazes uma corrida comigo?"


"Não. Estou cansada, filho." - é a resposta que me vem imediatamente à cabeça, mas que raramente digo.
Afinal de contas ele é meu filho e só quer correr.
Correr até à próxima porta, ao próximo poste, àquela mancha de alcatrão mais escuro.
Ele quer correr e ganhar - e eu quase já não preciso de fingir para o deixar chegar primeiro.
No fim destas curtas e frequentes corridas, destes momentâneos sprints, a que quero sempre dizer não, sinto-me feliz. Uma felicidade pura e despreocupada de quem apenas só correu um pouco, mas serviu para fazer o miúdo feliz.
Talvez para o ano devesse correr mais.

(Esta fotografia foi tirada pelo meu irmão, enquanto corríamos numa aldeia do Alentejo)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Pedras, paus e livros.





Nunca fui muito de colocar objectos em estantes, para além dos livros, mas agora parece que a minha casa assume uma vida diferente e que o próprio mundo faz questão de vir habitá-la de uma outra forma.
Desde pequena que acontece apaixonar-me por coisas insignificantes como pedras e paus que se cruzam no meu caminho. Tenho, por exemplo, algumas pedras que trouxe do tempo de Erasmus em Barcelona e que continuam a permanecer cá por casa. Tenho pedaços de madeira que encontro na praia ou raízes que encontro em jardins. Talvez estas coisas que acumulo acabem por me definir, ou pelo menos, ajudam a recordar-me que os sítios por onde passo e o que neles encontro fazem parte da minha história. Tanto como os livros que leio e as personagens que vivem dentro deles. Alguém que entrasse em minha casa poderia traçar um fiel retrato de mim, só pelas coisas que tenho nas prateleiras (sim, especialmente pelos livros, mas também por tudo o que vou acumulando ao lado).
Ultimamente, seres estranhos e materiais de arte vêm também para às estantes, fruto dos gostos do M. que são partilhados pelo resto da família.
E é assim, estas são as nossas estantes, estes somos nós.

E por isso, tudo isto é tão verdade: Our (bare) Shelves, Our Selves

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

os maravilhosos desenhos dele

Quando, no fim do ano escolar, o M. trás as pastas da escola, cheias de desenhos, fico sempre maravilhada. Eu sei que todas as mães adoram os desenhos dos filhos, e que isto não é nada de especial... Mas para mim, que até sou historiadora de arte, são mesmo das melhores coisas que existem.
Ele desenha muito. A nossa casa parece um atelier porque eu nunca o proibi de desenhar em nenhum sítio: existem desenhos na mesa de refeições, nas paredes, na porta de casa, na mesa de trabalho. As outras mães, mais arrumadas e fãs da limpeza devem achar um sacrilégio, mas para mim, qualquer desenho dele é uma maravilha, ou uma tentativa - e ambas são igualmente válidas!
Este ano, com a aprendizagem das letras e a ter de fazer tudo direitinho, tenho alguma receio que os desenhos se tornem menos espontâneos... Ando sempre a espreitar, a tentar ver como as coisas evoluem.
O que eu gostava mesmo, mesmo é que ele nunca deixasse de desenhar!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Cheiros para desembrulhar


As primeiras prendas de natal vêm com o bom gosto e o cheiro da Saponina!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015


 Dei por mim a ser a bibliotecária de serviço lá no museu. Receber livros novos, poder lê-los (mesmo que seja em diagonal) é um privilégio. Mas as bibliotecas, como os arquivos, são sítios de arrumação – locais onde tudo tem um lugar próprio e exacto, onde não pode haver dúvidas. Tudo certo, claro. Não fosse o problema de ter um espírito pouco dado a normas e muito dado a dúvidas. Este livro do García Lorca, por exemplo, deu-me voltas à cabeça e ficou à espera durante muito tempo. Ele podia ser catalogado em todas as categorias, mas também não cabia em nenhuma. Ou seja, catalogar García Lorca, embora necessário, parecia diminui-lo, apequená-lo e seria até injusto. Óbvio que tive de o fazer, como o fizeram inúmeros bibliotecários e livreiros antes de mim. Teriam também eles dúvidas? Para me redimir deixo-vos este retrato de olhos doces que é a capa da edição da Assírio & Alvim e isto: “Chegado este momento, vemos os amantes a abraçarem-se nas ondas.” Federico García Lorca

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

do verbo "aborrecer"

Sim. É o tempo outra vez. Só não sei se é o tempo repetido ou só a falta tempo. A última vez que escrevi ainda era verão e ainda podia vestir vestidos às flores. Tudo mudou desde daí, excepto o cd que continua a ser o mesmo no carro. No outono nada me anima, a não ser talvez abrir um romã e olhar espantada a sua cor. Procuro na estante um livro de poesia que não encontro e que portanto não me salvará da monotonia quotidiana. Pilhas de coisas para arrumar. Os desenhos do miúdo que continuam aqui numa pasta, à espera de um post. Fiz uma viagem e ouvi falar outras línguas. Lembrei-me do Budapeste do Chico Buarque - é um livro tão bonito quanto o autor. O rapaz cresce e tem personalidade e exigências - e eu não quero passar o tempo todo em disputas de poder. Aborreço-me, desinteresso-me. A vida não é sempre solar.

domingo, 20 de setembro de 2015

Um livro e uma banda sonora.

Parece que algo caracteriza 2015. Uma ida a Mértola e à feira islâmica, o concerto no Largo do Intendente dedicado ao poeta rei Al-Mu'tamid, que acabou por se tornar a banda sonora inúmeras vezes repetida, a que se juntou o livro dedicado ao mesmo.
Falta-me uma ida a Silves e a Sevilha, que ficarão para outro tempos. Outra vida tivesse e iria aprender árabe.

"Ao recolher-me na escrita, consigo, por vezes, na diversidade das circunstâncias, distinguir uma figura que se assemelha à natureza da pessoa que terei sido. Mas, mal tento chegar mais perto, pareço um viajante a observar uma terra estranha."
Ana Cristina Silva, Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'tamid

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Vontade de dançar e de sorrir

"Why can't you take the leaf off your mouth? Now that you have the facts on your side Take a moment to reflect who we are Let reason guide you, See old tracks lead you out from the dark Have a life its life, work makes up you and I What it takes this right, when we need to survive Yeah we flourish and die, what it means to be alive What it means to be alive" José Gonzalez

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma prenda para a mãe

Durante muitas noites fizemos teatrinhos de sombra. Utilizávamos as marionetas ou as mãos para fazer silhuetas que projectávamos nas paredes com a ajuda do candeeiro da mesa de cabeceira. Era uma brincadeira antes de dormir que o M. gostava muito, mas que já não fazemos há muito tempo.
Agora, depois de ter estado uma semana com os meus sogros, preparou-me esta maravilhosa surpresa. É o mais bonito teatro de sombras que já vi, claro. 
E, sobretudo, fiquei contente com a iniciativa e empenho.

domingo, 23 de agosto de 2015

Despojos de Verão | 2015

Persisto em continuar a coleccionar conchas e paus de estranhas formas.
Cabanas e Santo André.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Outros jardins


Jardins improvisados,
jardins abandonados,
jardins vadios,
jardins selvagens,
jardins ferrugentos,
jardins familiares,
jardins despretensiosos.
Jardins.

/aqui, perto de Casebres, quando ainda a Primavera começava/

Brincadeira de férias

Penso que os Playmobils lá de casa devem ser bastante felizes!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Da quietude






Fomos à casa dos meus avós. Melhor, fomos à casa dos meus bisavós, que já deve estar na família há cerca de 100 anos. É bom ter uma casa assim, por onde passaram gerações e onde nos sentimos pertencer. A casa fica no baixo Alentejo raiano, onde nesta altura reina o calor abafado e uma maravilhosa cor dourada.
Na ponta da aldeia, é a única casa da rua com porta de madeira. Felizmente, a minha família foi inteligente nisto, tentando manter todas as características da construção tradicional da zona. A maioria das pessoas não o fez e tenho sentido, por esse país fora, que deveria haver muito mais sensibilização para as técnicas de construção tradicionais. De resto, aldeia vai-se desvirtuando. No caso do Baixo Alentejo, muitas destas características de construção são ainda herança da ocupação islâmica. Apesar do Alentejo ser muito quente, a casa continua fresca todo o ano graças às paredes grossas, tetos altos e quase ausência de janelas. Tenho a sensação que os nossos antepassados, ainda que intuitivamente, sabiam construir melhor que os engenheiros e arquitetos de hoje.

No interior da casa, estão ainda presentes os objectos dos meus bisavós. As camas, as mesas, os candeeiros a óleo, as bilhas que serviam para guardar a água do poço. Gosto de tocar neles, de imaginar como seriam usados quotidianamente, como seria a vida daquela casa com seis crianças e como terá sido a infância do meu avô.
Fico a pensar: e a mim, que objectos me sobreviverão? Que testemunhos da minha existência deixarão pistas daquilo que sou? Ou ficarão apenas memórias virtuais, como este blogue ou fotografias perdidas nalgum computador?
Os meus bisas, Catarina e António, haviam de gostar de saber que o trisneto anda por ali e haviam de repetir, como o meu avô fez connosco: "Não se abeirem do poço." E como, mais uma vez repetiu, quando soube que eu levava o Manuel: "Não deixes o menino ir para o pé do poço." O poço, fonte de água fresca e límpida que desde sempre se bebeu na família.
Soube desde o primeiro momento que este é o sítio a que pertenço. Devia ter uns seis ou sete anos da primeira vez que ali fui. Lembro-me que a aldeia não tinha luz elétrica e de ter percebido de como a noite era escura. Lembro-me de ter ido ao rio Chança e de ter tido a sensação de que conhecia aquele lugar há séculos, como se uma espécie de memória genética tivesse desenhado aquele mapa em mim.
Dos verões da adolescência que ali passei, lembro-me dos pastores e dos seus rebanhos, das conversas à noite na soleira da porta e dos meus avós a cantarem à desgarrada.
Há muito tempo que não ia lá e soube bem voltar à Tapada da Mina, ao complexo das Minas de São Domingos - sempre tão cinematográfico -, ao rio Chança, onde somos sempre os únicos a estar. Sabe sempre bem voltar ao sítios a que pertencemos e tentar perpetuar essa fantástica memória que os locais e os objectos guardam de uma forma única e indelével. 
Um dia, ouvi o Pedro Rosa Mendes dizer que o Alentejo é um estado de alma. Nada podia ser mais verdade.

Os átomos de infantilidade

"É preciso pensar o devir-criança enquanto átomos de infantilidade, que produzem uma política infantil (desta vez, sim) molecular, que se insinuam nos afrontamentos molares de adultos e crianças..."
S. Corazza, Infancionática..., 2003, p. 101

Daqui, deste texto de Walter Omar Kohan

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Masterchef... Eu?

"Mãe, sabes aquele programa do Masterchef? Eles vão lá e aprendem com os professores, que ensinam e ajudam."
"Sim," - Respondi eu, ingenuamente.
"Sabes, mãe, tu podias ir fazer uma espécie de Masterchef... Com a avó Helena, ou outra avó qualquer."

Isto, depois de, há uma semana eu lhe ter feito a tão desejada lasanha e ele me ter dito: "A da Carla é melhor." (sendo que a "Carla" é a cozinheira da escola, a mim pereceu-me uma ofensa!)

E assim, se deita abaixo todo o imenso esforço que tenho feito para ser uma cozinheira razoável. Infelizmente pareço não ter herdado os genes da minha avó Clotilde, que passaram todos para o meu irmão - esse sim, cozinheiro de profissão.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Dança, quando chegares ao fim

Devia iniciar uma rubrica chamada, "Dança quando chegares ao fim" - que é um título roubado a um maravilhoso livro do Richard Zimler.
Durante algum tempo fui a aulas de dança à Sexta feira, mas definitivamente zumba não é a minha praia.
Assim, o melhor mesmo é pôr uma banda sonora cá em casa, não acham?
Para começar este maravilho e divertido vídeo dos Kings of Convenience

quarta-feira, 24 de junho de 2015

BCN

Encontrei este blogue e dei por mim a morrer de saudades de Barcelona e de ouvir falar catalão.
A verdade é que já passaram 15 anos (e fazer Erasmus em BCN era tão anos 90!) e nunca mais voltei.
Tenho alguma alergia a essa coisa do "turismo" e para mim Barcelona faz também parte do meu corpo, embora só lá tenha vivido 9 meses.
Por isso, nunca voltei. Tenho medo de voltar porque aquela cidade já não é a minha.
Ainda não sei, se devíamos ter ficado ou não.  Porque no fim do ano, afinal já éramos dois portugueses apaixonados em Barcelona.
Não ficámos. Não voltámos. Nem tivemos coragem suficiente para ir para a Irlanda trabalhar para um qualquer campo arqueológico.
Fomos ficando por aqui.
Mas agora, estou a morrer de saudades de Barcelona.
(Ou, se calhar, estou só a morrer de saudades de ter, ainda, tantas possibilidades à minha frente como tinha nessa altura.)

terça-feira, 23 de junho de 2015

O estranhamento do corpo

Diz-me que tenho rugas na testa.
Enumera, apontando com os pequenos dedos, os inúmeros sinais que tenho no corpo.
Pede para eu me rir ao espelho, só para ver os traços marcados nos cantos dos meus olhos.
Depois, olha-me com ternura, ou com pena, ou talvez com os dois.

 Eu envelhecerei, sim. De forma lenta, espero.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

As Ondas

Tropeçar em palavras que me podiam definir:
"É por isso que odeio espelhos que mostram o meu verdadeiro rosto. Quando estou só, é com frequência que me deixo cair no vazio. Tenho de ter cuidado e ver onde ponho os pés, não vá tropeçar na orla do mundo e cair no vazio. Tenho de bater com a cabeça nas paredes para poder voltar ao meu próprio corpo."
Virgínia Woolf, "As Ondas"