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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Vincent

Porque este homem devia ser mesmo muito sensível e o mundo não é fácil para pessoas assim que, por vezes, só os historiadores de arte compreendem!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Os Museus são como as cerejas

"Mãe, faz-se assim: primeiro tira-se o sangue todo pelo nariz, com uma agulha, depois tira-se o cérebro, a seguir corta-se a barriga e tira-se tudo lá de dentro, menos o coração. Como está tudo podre e cheira muito mal, põe-se perfume. Por cima. para dar sorte, põem-se os escaravelhos."
Arregalei os olhos, fiquei calada e pensei: "Tenho um Dexter de 5 anos anos a viver em minha casa."
Mas não pude resmungar, a culpa foi minha que o levai a uma actividade sobro o antigo Egipto na Gulbenkian. E ele, com aquele ar tão sério e aquela conversa macabra até teve graça!
Desde aí não se cala com as múmias e os deuses egípcios e, como a informação histórica já é tanta, a todo o tempo faz perguntas sobre a cronologia: "Mas foi antes ou depois dos homens das cavernas?", "Antes ou depois de Jesus?", "Antes ou depois do Dartacão?" (Há-de ser sempre Dartacão e nunca, jamais, D'Artagnan.)
E explicar-lhe onde encaixava, cronologicamente, a acção do filme "Como Treinares o teu Dragão". Pois, até eu fico mais inteligente com isto tudo (e com dor de cabeça também, confesso.)
Mas, bem, voltando aos museus... Sempre acreditei que os museus funcionam de modo cumulativo: quem vê um quer ver dois, quem vê dois, está perdido para todo o sempre! Assim aconteceu connosco pais (e especialmente comigo, que sou museóloga) e assim está a repetir-se com ele em modo muito mais rápido. Visitar museus é conhecer o mundo e a Humanidade, é abrir uma janela e querer abrir muitas, muitas mais. É não parar de fazer perguntas. E é tão bom!
Por isso, claro, este fim de semana lá fomos ao Museu Nacional de Arquelogia onde, depois do segurança lhe ter dito à porta "Cuidado, não acordes a múmia! Ela é muito chata!", entrou a medo na sala dos Tesouros Egípcios. E gostou ele. E gostámos nós.

E assim confirmo, como mãe, educadora e profissional de museus, uma das minhas frases favoritas:
In the Bible, we can find the famous statement that there is nothing new under the sun. That is, of course true. But there is no sun inside the museum. And that is probably why the museum always was – and remains – the only possible site of innovation." Boris Groys, The Art Power

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Meia hora a sós com um Rothko


O Brian Cohen escreveu um artigo sobre a maneira correcta de visitar um museu (existe mesmo uma?)  e eu fartei-me de rir porque, na prática, poderia ter sido eu a escrevê-lo, ora vejam lá:

"To get the most out of your museumgoing experience, I recommend the following:

1. Avoid docents. If a docent enters a room, leave immediately (...).

2. Get out of sync with people with the big headphones; they move at a predetermined and predictable pace, and only when the recording tells them to. (...)

3. Establish and protect your space in front of a painting* for as long as you'd like. Don't let anyone get between you and the art. (...)
* Sculpture is what you bump into when you back up to see a painting -- Barnett Newman

4. Avoid the guards or pretend they're not looking at you. (...) If an alarm goes off, act like it wasn't you.

5. Go to empty rooms. Seek out at the "minor" arts like drawing and printmaking, or non-European/American art (no one will be there).

6. Don't look at everything on view; not everything is equally worthy of your attention, nor do you have the stamina to see it all. (...) Pace yourself; sit down when you can, and leave the museum before you're exhausted.

7. Avoid peak hours, blockbuster shows, and popular masterpieces. You can claim to have seen the Mona Lisa without having looked at it; no one will know. Go when conditions are more favorable.

8. Go alone and don't interact with anyone. Surround yourself in an aura of invisibility and inviolability. You are there not for an interpersonal but for an inner experience.

9. Act like you own the art. It should be yours; it's not your fault you're not rich."

Brian D. Cohen, "How to Visit a Museum" (vale a pena ler, é super cómico!)

Devo ser sincera: sou museóloga e trabalho na área de comunicação de um museu, passo o dia numa série de tarefas que têm como objectivo,embora não único, trazer mais público ao museu (esta ditadura dos números tem muito que se lhe diga) e fico contente quando isso acontece.
Mas quando sou eu do outro lado, tudo muda! Eu gosto de museus pequenos, quase vazios, silenciosos... Eu acho que a arte também é uma espécie de religião e para visitar um museu, a minha palavra privilegiada é contemplação...
A última vez que estive no Louvre odiei, foi a pior experiência da minha vida como visitante de museus... Em frente à Mona Lisa havia uma fila, ninguém podia parar, as pessoas empurravam-se e os guardas enxotavam-nas, parecíamos gado. Fugi para as salas de cerâmica medieval onde não estava ninguém, que maravilha! Fui ver umas salas de pintura que estavam vazias e descobri, por acaso, este auto-retrato do Dürer (que adoro).


É bom termos gente nos nossos museus, claro, mas a qualidade da experiência, o tempo que aqui passam e, sobretudo, se ficam ou não com vontade de voltar também conta...
E, quanto a mim, deixem-me estar meia hora a sós com um Rothko que, como diz o Brian Cohen, eu não tenho culpa de não ser rica...

(sim, as personagens femininas dos romances da Ana Teresa Pereira, lembram-se?)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O risco de expor uma obra de arte


Quando estudei em Barcelona tive uma professora de conservação que nos disse, a meio de uma aula: “Os maires riscos para os museus de arte contemporânea são as crianças e os velhinhos.” Dizia isto porque a arte contemporânea, especialmente determinado tipo de instalações, se presta a distrações: os miúdos podem tropeçar na obra quando correm e aos mais idosos, muitas vezes por dificuldades de mobilidade pode acontecer o mesmo ou parecido. Não posso negar que isto, em determinado sentido, possa ser verdade, mas nunca conheci nenhum caso real.
Expor uma obra é sempre um risco: nas galerias de um museu ela está sempre mais vulnerável do que no ambiente mais que controlado das reservas. Mas esse risco deve ser assumido pelos curadores da exposição, pelos diretores de museu e, se for o caso, pelos proprietários da obra. Como sabemos de notícias recentes, até (se calhar, principalmente) nos museus mais insuspeitos acontecem acidentes ou atos de vandalismo. Quando se perde uma obra de arte, todos nós perdemos, mas se guardássemos sempre tudo em reservas perderíamos muito mais. Por isso, quando um comissário de uma exposição escolhe uma obra e o local onde vai ser exposta, deve medir bem os prós e os contras, sabendo sempre desse risco, como o sabem tão bem todos os profissionais de museus mas não deve, nunca, colocar barreiras à contemplação da obra porque, nesse caso, mais vale não a expor.
Neste exemplo que vi há pouco tempo no átrio principal do CAMJAP | Gulbenkian, parece-me que o maior risco para a obra foi mesmo o comissário da exposição, porque se trata de um caso em que as barreiras, colocadas por questões de segurança, interferem em demasia (e diria mesmo, destroem) a obra. E lembro-me bem de, na mesma instituição, ver excelentes opções de exposição desta “floresta”: tanto numa antiga montagem do CAM, como em “50 anos de Arte portuguesa” (foto em baixo). Ainda para mais que o próprio artista, Alberto Carneiro, pensou “Uma Floresta para os Teus Sonhos” para ser uma obra que o visitante pudesse atravessar e, como se lê no próprio site do CAM, na ficha da peça:
“um tronco de árvore não é dado a ver através do desenho ou de uma fotografia, mas é um tronco de árvore ele mesmo que é mostrado, como em Uma Floresta para os Teus Sonhos, em que 200 troncos de árvores de diferentes dimensões e alturas podem não só ser contemplados, como atravessados ou tocados.” Para além de todos os riscos óbvios a que as obras estão sujeitas e mais os imprevisíveis ataques de lunáticos e possíveis quedas de crianças tresloucadas ou velhinhos distraídos eu, pessoalmente, gostaria muito que não fosse necessário acrescentar os curadores a esta lista.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Nós na Ilustrarte


Sobre a Ilustrarte já escrevi aqui, mas não resiti a esta fotografia: sim, gostamos de livros!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Diários do Museu

"Ten women and eight men, all of whom were acquaintances or friends of at least one of the authors, who were known to visit museums regularly, and who were known to naturally do some level of writing were approached and asked to participate. The approach was quite simple usually an email or telephone call explaining the overall MLC mission and the role of the diary study. (...) Each participant was then asked to write a personal description; to agree to visit five museums in the subsequent four to six months; and to write up a diary account of each visit. Any museum was acceptable and any spacing of the visits was acceptable. (...) Finally, some purposes were what we call ‘challenging’ in the sense that the diarist was pressing herself to be expansive; the diarist seemed to sense that there was more to learn in ageneral way about her immediate environment." http://www.museumlearning.org/mlc-04.pdf



Desde que sou mãe a minha experiência como visitante de museus mudou da noite para o dia. Continuo a visitá-los, claro. Continuo a gostar, claro, Mas a vivência que tenho dos espaços e das obras é completamente diferente. Pergunto-me se os profissionais de museus pensam nisto...

Agora, quando vou a um museu, há sempre uma coisa pequena colada a mim a dizer "mãe, olha!", a querer mexer e a querer correr, claro... Por isso, passo pelas obras, sem ler nenhuma tabela ou texto de sala. Tenho, verdadeiramente, uma experiência de carácter estético in motion. Deixei de ser uma estudante de museologia ou uma profissional de museus, uma vez que a minha "função" de mãe se sobrepõe a tudo isto. E daí, um destes dias, a preparar inquéritos para o museu onde trabalho, surgiu uma ideia...

Sou sincera: não gosto de questionários, mas são a forma mais fácil (se não a única exequível) de tentarmos conhecer os nossos visitantes (sim, já sabemos, mais coisa menos coisa, desde Bourdieu) e, mais importante, de percebermos o que eles acham/pensam/sentem nos/dos nossos museus. Por isso, o que eu gostava mesmo é que as pessoas que visitam museus deixassem relatos: relatos sinceros e espontâneos do que vivenciaram, verdadeiros diários de visitas.

Então, a partir deste estudo (citado acima), proponho criar os Diários de Museu. Será um blogue em qualquer pessoa que habitualmente costume visitar museus e com alguma destreza de escrita deixe os relatos dos museus, monumentos e exposições que visita. Relatos sinceros, espontâneos, descomprometidos e não académicos! Impressões pessoais sobre a visita e as suas motivações, os objectos expostos, o pessoal/atendimento, enfim... o que vos passar pela cabeça! Dois parágrafos, no máximo três. Uma ou duas fotografias!

Estou à espera!
diariosdomuseu@gmail.com

sábado, 22 de janeiro de 2011

MUDE



Finalmente fomos ao MUDE. Foi preciso um isco que, neste caso foi a exposição/instalação RE- RITE (a música também se expõe).
Gostámos muito de algumas coisas e menos de outras, a saber:

Mais:
O edíficio do BNU é lindíssimo e o seu estado ainda semi abandonado casa muito bem com a sofisticação dos objectos de design e vestidos de alta costura
A colecção é mesmo boa
A montagem é inteligente e didáctica
O Museu estava cheio porque fica muito bem localizado e diz na porta "Entrada Gratuita"

Menos:
Não se pode tirar fotografias e embora não se possa mexer nas peças (como é óbvio) vi muita gente a fazê-lo enquanto os assistentes de exposição conversavam distraídos.
Não me parece eficaz em termos de conservação das peças, especialmente tratando-se de tecidos

A não perder:
RE-RITE - quem não gostaria, pelo menos por instantes, de fazer parte de uma orquestra? E de ser o maestro?
SEMENTES - Valor Capital: Tinha muita curiosidade sobre esta exposição. Como é que se pode tornar uma exposição de sementes algo interessante? Pois bem Bárbara Coutinho
(a comissária e directora do museu) soube fazê-lo casando o fantástico espaço dos cofres do BNU com o objecto exposto. Gostámos e ficámos a conhecer umas sementes de nome Picasso: tenho muita vontade de plantá-las!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"Os melhores museus estão onde menos se espera"


Através de um outro blog (Dias que voam) descobri este fantástico artigo da Alexandra Lucas Coelho sobre pequenos museus. Tem tudo a ver com o post anterior e faz-me lembrar que há muito quero fazer uma lista de pequenos museus a visitar em Portugal.

"Gostamos de museus. E temos bons museus - alguns com prémios internacionais, e nem sempre os mais óbvios. Guardámos selvas empalhadas, ânforas romanas, latas de sardinhas, pentes pré-históricos, dados viciados, chapéus de feltro, e até a cadeira onde Camilo se suicidou. Houve alturas em que corremos o risco de nos esquecermos de nós próprios. Boas notícias: afinal não vamos perder a memória.

Viagem rápida pelo país. Cinco museus: Portimão, Penafiel, Casa de Camilo em São Miguel de Seide (Famalicão), Museu da Chapelaria em São João da Madeira, e Museu da Ciência em Coimbra. Podiam ser outros, é verdade, mas estes contam histórias diferentes umas das outras; foram, vários deles, premiados; fazem, quase todos, parte da Rede Portuguesa de Museus, que em 2010 celebra dez anos; e são, todos eles, exemplos de vontade, persistência, teimosia, e prova de que não deitar fora uma velharia pode afinal ser uma decisão de grande importância. Enão ficam nem em Lisboa nem no Porto.
(...)
E assim, graças ao Marquês de Pombal e ao pescador que um dia encontrou uma ânfora em Portimão, aos amigos de Camilo e ao farmacêutico de Penafiel, aos chapeleiros de São João da Madeira e ao rio Arade, que guardou o passado para o devolver quando achou que, finalmente, lhe íamos dar atenção - graças à teimosia e à visão de todos eles parece que, afinal, não vamos perder a memória. "

(Alexandra Lucas Coelho, Ipsílon/Público, 25-08-2010)

Nota: foi também Alexandra Lucas Coelho a escrever no mesmo jornal o artigo sobre "O Museu da Inocência". Terá sido concidência?

Nota 2 - A imagem é do blog do Museu da Chapelaria. Eu nunca lá fui.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Museu da Inocência


“Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço” (p.614)

Andei, durante mais tempo do que seria suposto, acompanhada pela história de Kemal Bey e Füsun. Numa primeira leitura poderíamos pensar que se trata de um romance demasiado obsessivo. Mas a paixão não é sempre obsessiva? Claro que este livro é uma história de amor, mas é a mais bela história de amor que alguma vez li num livro, vi no cinema, li num poema ou ouvi numa música. É uma história cheia de paciência, de lirismo, de humildade, de inocência, claro.
Numa segunda leitura deparamo-nos com a Istambul dos anos 70, num retrato tão fiel que quase acredito ter lá vivido. A forma como o autor nos vai descrevendo todos os locais por onde passou com a sua amada, ou onde simplesmente viu o seu “fantasma”, as personagens com quem se cruza, os objectos que vai freneticamente coleccionando dão uma lição aos sensaborões museus da cidade que existem por esse mundo fora. O Museu da Inocência poderia muito bem transformar-se no Museu da Cidade de Istambul, ou não fossem as cidades mais que memórias daqueles que as habitam.
Na leitura que fiz deparei-me com o tema que mais me importa: os museus. Na minha tese, a determinada altura, comparo, estabelecendo semelhanças e diferenças, o acto de ler um livro ao de visitar um museu (1). Não pensei que um pudesse completar outro, mas neste sentido Orhan Pamuk é um génio:

Foi nessa noite que compreendi que o meu museu precisava de um catálogo anotado, relatando detalhadamente as histórias de cada uma das suas peças. Sem dúvida isso passaria também a fazer parte da história do meu amor por Füsun e da minha veneração”
(…) um escritor teria de redigir um catálogo da mesma forma que escreveria um romance. Mas, não tendo a menor vontade de tentar escrever eu mesmo tal livro, perguntei-me: quem poderia fazê-lo?
Foi assim que acabei por procurar o estimado Orhan Pamuk, que narrou esta história em meu nome e com a minha aprovação.
” (p. 616)

Os objectos como forma de imortalidade

Não sei se acontece com os outros, mas em mim é comum. Muitas vezes guardo objectos que nada têm de especial porque sei que, com essa recolha, prolongo o momento que nessa altura estou a viver. Há dez anos que me acompanha uma belíssima pedra que apanhei na praia em Barcelona, assim como um pedaço de madeira gasto pelo mar de Sines. São também alguns os objectos que, com carinho, guardo do meu avô Cesário: o chapéu de chuva - negro, grande, pesado e com varetas fortes - e a cafeteira azul onde, todas as noites, preparava o café de cevada para beber no dia seguinte (na noite em que morreu preparou o último, que a minha avó demorou a deitar fora). Também durante nove anos, Kemal Bey vai surripiando objectos que lhe fazem lembrar a sua amada. Lhe fazem lembrar? Mais do que isso, estes objectos prolongam a presença de Füsun e suspeito mesmo que, a determinada altura, os objectos e Füsun são uma e a mesma coisa.
Neste sentido, Orhan Pamuk destroí a sentença de Adorno de que os museus se assemelhariam a mausoléus, porque o museu de Kemal Bey é a sua única hipótese de sobrevivência e também a única forma que tem de amar Füsun.

O poder de um objecto jaz indubitavelmente nas memórias que guarda em si, e também nas vicissitudes da nossa imaginação e das nossas memórias.” (p.397)

Os guardas dos museus

Pamuk é inteligente noutra coisa: ele percebe como os museus e, mais especificamente os objectos, precisam de intermediários para poderem falar com todo o seu potencial ao visitante. Mas não fala de catálogos (pelo menos, não como os entendemos), nem de tabelas ou textos explicativos. Fala de gente, fala dos guardas do museus e sabe que a capacidade de fazer ou não falar um objecto depende do grau de amor (e, por conseguinte, de pertença) que o intermediário sente por ele.

“ – Sabe quem me ensinou que o orgulho ocupa o lugar central num museu, Orhan Bey? –perguntou-me Kemal Bey durante outra sessão nocturna no seu sótão – Os guardas dos museus, obviamente. Onde quer que fosse no mundo, os guardas respondiam a todas as minhas questões com paixão e orgulho. (…) Orhan Bey, se alguém fizer uma pergunta no nosso museu, os guardas deverão relatar a história da colecção Kermal Basmaci, o amor que sinto por Füsun e os significados de que os seus pertences se investem, com esse mesmo ar digno. Por favor ponha isto também no seu livro.” (p. 624)

O elogio dos pequenos museus

Numa altura em que (ainda) predomina o gosto por grandes museus – por vezes demasiado grandes e iguais entre si, em muito devido à disseminação do modelo “cubo branco” – Orhan Pamuk elogia a personalidade e originalidade dos pequenos Museus, deixando-nos cheios de inveja porque, à altura da sua morte, o protagonista da história tinha visitado 5723 museus (2) dos quais falava assim:

Senti um enorme consolo, esse mesmo entendimento profundo, ao vaguear pelos museus. Não me refiro ao Louvre ou ao Beaubourg, ou a outros desse tipo, ostentatórios e cheios de gente, refiro-me agora aos muitos museus vazios que encontrei em Paris, às colecções que nunca ninguém visita. (…) Sempre que passeava a sós por museus como aquele [Jacquemart-André, em Paris], sentia-me melhor. Descobria uma sala nos fundos, longe do olhar dos guardas, sempre muito atentos a cada passo que eu dava; com os sons do trânsito e das obras e o ruído urbano que ali entravam vindos do exterior, era como se tivesse entrado num domínio à parte, que coexistia com as movimentadas ruas da cidade mas que não lhe pertencia; e, na sinistra intemporalidade daquele outro universo, encontrava consolo.” (p. 596)

(1) “Walking through a museum is like reading a book” Mieke Bal, Double exposures
(2) entre os quais: o Museu Bagatti Valsecchi em Milão, o Museu Internacional da Perfumaria no Sul de França, o Museu da Vida Romântica em Paris, o Museu de Insectos e Borboletas La Ceiba nas Honduras, o Museu da Medicina Chinesa em Hangzhou, o Museu-Atelier de Paul Cézzane em Aix-en-Provence, o Museu Florence Nightingale, em Londres (onde também visita o Soane’s Museum) e no nosso Museu Romântico da cidade do Porto (na página 624).

Nota minha:
Por vezes, enquanto lia este livro, o meu filho de dez meses entretinha-se a meu lado com o marcador que reproduz a imagem da capa. Por isso ficou todo amarfalhado e poderia também ele fazer parte do meu “museu da inocência”.
(ver capítulo 69, "Por vezes", pp. 483-490)

quinta-feira, 11 de março de 2010

O rapaz que gostava de cemitérios e que agora expõe no MoMA


Confesso que sempre me irritaram as constantes comparações entre os museus e os mausoléus, ou cemitérios. Adorno foi o primeiro a fazê-lo em Valery Proust Museum:
“The German word museal has unpleasant overtones. It describes objects to which the observer no longer has a vital relationship and which are in the process of dying. … Museum and mausoleum are connected by more than phonetic association. Museums are like the family sepulchres of works of art.”
Este tipo de ideias parte do princípio de que as obras de arte só estariam vivas no seu contexto original (por exemplo, uma igreja) e que, ao retirá-las daí, o museu apenas expunha objectos "mortos". Claro que com a arte contemporânea, em que muitas (ou a maior parte) das vezes as obras são produzidas para o museu, esta ideia deve ser posta de lado. E, mesmo no que a outras épocas diz respeito, o museu não "mata" os objectos, antes dá-lhes uma outra vida, criando a sua autonomia dentro da esfera artística. Acredito que o museu devolve aos objectos a sua verdadeira função: quando Fra Angelico pintou a Anunciação, estava mais interessado no tema ou na pintura?
Por isso, para mim, até há bem pouco tempo museus e cemitérios não tinham nada a ver, até que...
"Growing up in Burbank, there wasn´t much of a museum culture. I never visited one until I was teenager (unless you count the Hollywood Wax Museum). I occupied my time going to see monster movies, watching television, drawing, and playing in the local cemetery. Later, when I did start frequenting museums, I was stuck by how similar the vibe was to the cemetery. Not in a morbid way, but the both have a quiet, introspective, yet electrifying atmosphere. Excitement, mystery, discovery, life, and death all in one place."
( E isto escreve Tim Burton no "Artist's Statement" - Declaração do Artista? - do seu catálogo da exposição no MoMA. Espantoso, não é? Eu vou expôr num museu, mas acho que os museus são similares a cemitérios - e gosto disso: só mesmo ele!)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Para ver no Museu do Chiado




Western Union: Small Boats de Isaac Julien.
... e parabéns ao museu: finalmente um site, com um design apetecível e informações actualizadas (que muita falta fazem para a tese da rapariga!)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

For reasons of safety, we ask the public not to run or obstruct the runners.


ou:
"O Corpo no Museu"
ou:
"da velocidade na obra de arte"

O corpo foi uma das temáticas mais tratadas na arte do século XX. Não sabemos se voltará a sê-lo neste século.
Este trabalho de Martin Creed relembra essa tematização sobre o corpo, mas é mais do que isso. É sobre o corpo, sobre o museu, sobre o turismo e sobre a percepção.
Quantos corpos há num museu? Os corpos das obras, os corpos nas obras, os corpos dos visitantes, os corpos dos vigilantes, dos monitores, dos conservadores... Como se movimentam e o que fazem? O que é que isso implica na forma como nos relacionamos com as obras.
Aqui, a relação entre obra de arte e visitante inverte-se: agora é a obra que se movimenta, é ela que tem ritmo, que corre, que desaparece.
Longe do museu como local de contemplação da arte "maior", Creed tematiza uma espécie de "bulimia" museal: ver sempre, não importa como, nem a que velocidade.

"In Palermo we went to see the catacombs of the Capuchin monks. We were very late and only had five minutes to see it all before closing time. To do it we had to run. I remember running at top speed with my friends through the catacombs looking desperately left and right at all of the dead people hanging on the walls in their best clothes, trying our best to see it all... it was a good way to see it. It was that kind of delirious running which makes you laugh uncontrollably when you're doing it. I think it's good to see museums at high speed. It leaves time for other things."

Martin Creed, para ver na Tate Britain até 16 de Novembro (ou aqui*)

domingo, 17 de agosto de 2008

Outras ficções


"Outras ficções" é o nome da exposição que está no Museu do Chiado. No Museu Nacional de Arte Contemporânea, aliás. Mais uma vez propõem-se cruzamentos e encontros de obras de períodos diferentes na procura de novas leituras interpretativas para cada uma das peças expostas.

As minhas preferidas:
- Ângela Ferreira e Alexandre Estrela (no núcleo "O Lugar")
- João Tabarra (em "Rebaixamento)
- Pedro Paiva e João Maria Gusmão (em "Acontecimento")

A que ficou melhor na fotografia:
- Júlia Ventura (Papel de Parede e Geometrical reconstruction and figure with roses, no núcleo "Reversibilidade")

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Sir Soane´s Museum




Este museu fica em Londres e é especial. Pouco conhecido e menos frequentado pelos turistas, é uma verdadeira surpresa. Por isso escrevo sobre ele. Passo a vida a visitar museus e, às tantas, já todos me parecem iguais. Já todos me parecem "não- lugares", para usar a expressão de Marc Augé. As questões da conservação e mesmo a mania de querer "modernizar" a todo o custo leva a que os museus se assemelhem demasiado uns aos outros .Até mesmo as casas históricas chegam a perder a "patine" do tempo, que na verdade é o que as torna especiais.
Mas o Soane's Museum é uma excepção à regra. Em 1833, quatro anos antes de morrer, este arquitecto inglês deixou ao Estado a sua colecção para que fosse aberta ao público, na condição de que fosse mantida "as nearly as possible in the state in which he shall leave it".
Em 1913 mudou para o número 13 da Lincoln's Inn Fields, que reconstruiu como habitação mas também como museu onde "dispôs a sua colecção para educar e inspirar amadores e estudantes de pintura, arquitectura e escultura". Nessa altura já eram admitidos visitantes no museu desde que não estivesse um tempo húmido!
Em 1995, depois de uma intervenção que demorou cinco anos, o museu foi reaberto ao público. Não existiram tentativas de reformular a exposição da colecção, tal como tinha sido pedido por Soane e se compararmos as aguarelas da época com o espaço que nos é apresentado confirmamos que tudo permanece no sítio. Não há sequer legendas nas salas, apenas discretos textos sobre a sala em que nos encontramos em cima das mesas. No entanto, há funcionários sempre prontos a darem explicações. O gabinete de pinturas é, tal como o nome indica,uma sala repleta de pinturas de alto a baixo e os painéis podem ser abertos, escondendo por trás novas pinturas ou mesmo maquetes de edifícios! No "Dome" (na fotografia) Soane dispôs os bustos clássicos, urnas funerárias e fragmentos de aqruitectura e escultura provavelmente inspirado pelas gravuras de ruínas romanas de Piranesi.
Vale mesmo a pena ir lá ou visitar aqui.

(imagens e citações retiradas de "Sir John Soane's Museum. A short description.")

terça-feira, 29 de julho de 2008

There is no right or wrong way to visit a museum


Aqui está o velho dilema que Serota também aponta: experiência ou interpretação? Experiência, claro. Mas pergunto: é possível que a experiência seja também uma forma de interpretação?
“There is no right or wrong way to visit a museum. The most important rule you should keep in mind as you go through the front door is to follow your own instincts. Be prepared to find what excites you, to enjoy what delights your heart and mind, perhaps to have esthetic experiences you will never forget. You have a feast in store for you and you should make the most of it. Stay as long or as short a time as you will, but do your best at all times to let the work of art speak directly to you with a minimum of interference or distraction.” (David Finn, How to visit a Museum, New York, Abrams, 1985)
... e a fotografia, de uma exposição no MoMA em 1939, retirada de: STANISZEWSKI, Mary Anne, The Power of Display, A History of Exhibition Installations at the Museum of Modern Art, The Mit Press, Cambridge, Mass.; London, England, 1998

domingo, 23 de março de 2008

Are museums for high culture or low?



Esta é uma frase do artigo "Museums Refine the art of Listening" que saiu hoje no New York Times. Já sabemos da importância dos estudos de público para perceber quem nos visita e, não menos importante, quem não o faz e porquê. Mas o que oferecem os museus em troca? Que pertinência podem ter estes estudos na curadoria de exposições, na arquitectura de museus, na forma como recebemos o público? Parece que a questão vai ainda mais longe quando nos perguntamos se os museus correm o risco de baixarem demasiado o nível com o objectivo de conseguirem atingir mais visitantes (o que muitas vezes significa também conseguirem mais verbas).
Talvez esta não seja a forma mais correcta de pôr a questão. Quem gosta de museus, quem trabalha neles, quer divulgá-los e receber os visitantes da melhor forma possível. Ninguém gosta de uma exposição cansativa e sem os mínimos recursos de leitura. Também ninguém nasce ensinado. Os museus devem abrir as portas, permitir o conhecimento das colecções, ter espaços de descanso e aprendizagem nas exposições e disponibilizar o máximo de informação possível sobre as exposições. Acho que isso não custa muito, mas conheço poucos museus onde é feito.
Achei muito boa ideia esta sala do Hamburguer Bahnhof (primeira foto), com frases de artistas e livros sobre arte contemporânea (para já não falar da linguagem pouco pretenciosa, mas muito interessante, do audio-guia gratuito!). Na segunda foto (do artigo) um "learning lounge" no San Francisco Museum of Modern Art, com catálogos e excertos de conversas com artistas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A diagonal do louco


O que é expor? Dar a ver de forma aleatória ou criar jogos, luzes, entendimentos entre obras de arte e lugares, obras de arte e espectadores? Nem todos os espaços o possibilitam, nem todas as obras o permitem, nem todos os comissários o conseguem (ou o ousam). Mas há momentos felizes, em que as obras ganham uma nova vida, os espectadores um novo olhar e os espaços mais magia: Rui Sanches em “50 anos de arte portuguesa” (na Gulbenkian e com Raquel Henriques da Silva como comissária).
O título (do post) é roubado a Hubert Damisch que diz:
“ La diagonale du fou, ou l’hypothèse du musée vu, parcouru, saissi, mais aussi bien déjoué, par la bande. » (L’amour m’expose)

sábado, 1 de setembro de 2007

Museu Agrícola (ainda a propósito da curiosidade)









Fascinam-me os objectos para os quais não se percebe, à primeira vista (de quem é leigo no assunto), a utilidade. Normalmente tratam-se até de coisas bastante práticas que tiveram uso num quotidiano mais ou menos afastado (imagino, por exemplo, um neto meu a olhar para um disco de vinil ou uma cassete!).
Procuro nestes objectos aquilo que, depois da utilidade, se torna estética. O que neles há de "objecto de museu", mas de um museu de arte em que a utilidade é posta de lado e o objecto (não sendo contudo artístico) adquire um carácter, se quisermos, poético.
Foi o que me aconteceu no encontro com estas alfaias agrícolas, em Casebres, num passeio com o meu tio Francisco. Segundo ele vieram da ex-União Soviética para a cooperativa local, nos anos 80, com o objectivo de ajudarem na reforma agrária. Hoje em dia, já não são utilizadas e estão ali, ao sol, a ganharem aquela cor fastástica do ferro (?) envelhecido. Não sou muito boa fotógrafa, mas se fosse acho que dariam boas imagens.
Também não sei a denominação de todas, mas a última é uma semeadora: punham-se as sementes nos cilindros grandes e depois estas caiam por uns cones mais pequenos. Todas estas máquinas (tirando a mó) iam atreladas a tratores que também lá estão. Quem souber o que são as outras máquinas e como funcionam, pode dar umas dicas...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Museus, por Don Delilo

Este Verão fiz uma recensão crítica sobre um texto de Hopper-Greenhill que trata a questão dos museus e dos seus visitantes. A certa altura ela diz que as pessoas não vão a museus por se sentirem vigiadas, nomeadamente pela presença dos guardas, mas também através das câmaras de segurança aí colocadas. Ela aproxima portanto o museu às estruturas de poder e vigilância que Foucault trata em “Vigiar e Punir”:
Seria interessante procurar e recolher em literatura não específica, referências à instituição “museu” e, ao voltar a Don Delilo (“Os Nomes”), cruzei-me com isto:
– Não consegue arranjar ninguém em Atenas?
“ – Fui adquirindo um ar preocupado. As mulheres julgam que quero levá-las aos museus.
“ – Não gosto de museus. Os homens seguem-me sempre nos museus. O que se passa nesses lugares? De cada vez que me volto há uma pessoa a observar-me.”

(Don Delilo, Os Nomes, Público/colecção Mil Folhas, 2004, pág.157)