terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Museu da Inocência


“Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço” (p.614)

Andei, durante mais tempo do que seria suposto, acompanhada pela história de Kemal Bey e Füsun. Numa primeira leitura poderíamos pensar que se trata de um romance demasiado obsessivo. Mas a paixão não é sempre obsessiva? Claro que este livro é uma história de amor, mas é a mais bela história de amor que alguma vez li num livro, vi no cinema, li num poema ou ouvi numa música. É uma história cheia de paciência, de lirismo, de humildade, de inocência, claro.
Numa segunda leitura deparamo-nos com a Istambul dos anos 70, num retrato tão fiel que quase acredito ter lá vivido. A forma como o autor nos vai descrevendo todos os locais por onde passou com a sua amada, ou onde simplesmente viu o seu “fantasma”, as personagens com quem se cruza, os objectos que vai freneticamente coleccionando dão uma lição aos sensaborões museus da cidade que existem por esse mundo fora. O Museu da Inocência poderia muito bem transformar-se no Museu da Cidade de Istambul, ou não fossem as cidades mais que memórias daqueles que as habitam.
Na leitura que fiz deparei-me com o tema que mais me importa: os museus. Na minha tese, a determinada altura, comparo, estabelecendo semelhanças e diferenças, o acto de ler um livro ao de visitar um museu (1). Não pensei que um pudesse completar outro, mas neste sentido Orhan Pamuk é um génio:

Foi nessa noite que compreendi que o meu museu precisava de um catálogo anotado, relatando detalhadamente as histórias de cada uma das suas peças. Sem dúvida isso passaria também a fazer parte da história do meu amor por Füsun e da minha veneração”
(…) um escritor teria de redigir um catálogo da mesma forma que escreveria um romance. Mas, não tendo a menor vontade de tentar escrever eu mesmo tal livro, perguntei-me: quem poderia fazê-lo?
Foi assim que acabei por procurar o estimado Orhan Pamuk, que narrou esta história em meu nome e com a minha aprovação.
” (p. 616)

Os objectos como forma de imortalidade

Não sei se acontece com os outros, mas em mim é comum. Muitas vezes guardo objectos que nada têm de especial porque sei que, com essa recolha, prolongo o momento que nessa altura estou a viver. Há dez anos que me acompanha uma belíssima pedra que apanhei na praia em Barcelona, assim como um pedaço de madeira gasto pelo mar de Sines. São também alguns os objectos que, com carinho, guardo do meu avô Cesário: o chapéu de chuva - negro, grande, pesado e com varetas fortes - e a cafeteira azul onde, todas as noites, preparava o café de cevada para beber no dia seguinte (na noite em que morreu preparou o último, que a minha avó demorou a deitar fora). Também durante nove anos, Kemal Bey vai surripiando objectos que lhe fazem lembrar a sua amada. Lhe fazem lembrar? Mais do que isso, estes objectos prolongam a presença de Füsun e suspeito mesmo que, a determinada altura, os objectos e Füsun são uma e a mesma coisa.
Neste sentido, Orhan Pamuk destroí a sentença de Adorno de que os museus se assemelhariam a mausoléus, porque o museu de Kemal Bey é a sua única hipótese de sobrevivência e também a única forma que tem de amar Füsun.

O poder de um objecto jaz indubitavelmente nas memórias que guarda em si, e também nas vicissitudes da nossa imaginação e das nossas memórias.” (p.397)

Os guardas dos museus

Pamuk é inteligente noutra coisa: ele percebe como os museus e, mais especificamente os objectos, precisam de intermediários para poderem falar com todo o seu potencial ao visitante. Mas não fala de catálogos (pelo menos, não como os entendemos), nem de tabelas ou textos explicativos. Fala de gente, fala dos guardas do museus e sabe que a capacidade de fazer ou não falar um objecto depende do grau de amor (e, por conseguinte, de pertença) que o intermediário sente por ele.

“ – Sabe quem me ensinou que o orgulho ocupa o lugar central num museu, Orhan Bey? –perguntou-me Kemal Bey durante outra sessão nocturna no seu sótão – Os guardas dos museus, obviamente. Onde quer que fosse no mundo, os guardas respondiam a todas as minhas questões com paixão e orgulho. (…) Orhan Bey, se alguém fizer uma pergunta no nosso museu, os guardas deverão relatar a história da colecção Kermal Basmaci, o amor que sinto por Füsun e os significados de que os seus pertences se investem, com esse mesmo ar digno. Por favor ponha isto também no seu livro.” (p. 624)

O elogio dos pequenos museus

Numa altura em que (ainda) predomina o gosto por grandes museus – por vezes demasiado grandes e iguais entre si, em muito devido à disseminação do modelo “cubo branco” – Orhan Pamuk elogia a personalidade e originalidade dos pequenos Museus, deixando-nos cheios de inveja porque, à altura da sua morte, o protagonista da história tinha visitado 5723 museus (2) dos quais falava assim:

Senti um enorme consolo, esse mesmo entendimento profundo, ao vaguear pelos museus. Não me refiro ao Louvre ou ao Beaubourg, ou a outros desse tipo, ostentatórios e cheios de gente, refiro-me agora aos muitos museus vazios que encontrei em Paris, às colecções que nunca ninguém visita. (…) Sempre que passeava a sós por museus como aquele [Jacquemart-André, em Paris], sentia-me melhor. Descobria uma sala nos fundos, longe do olhar dos guardas, sempre muito atentos a cada passo que eu dava; com os sons do trânsito e das obras e o ruído urbano que ali entravam vindos do exterior, era como se tivesse entrado num domínio à parte, que coexistia com as movimentadas ruas da cidade mas que não lhe pertencia; e, na sinistra intemporalidade daquele outro universo, encontrava consolo.” (p. 596)

(1) “Walking through a museum is like reading a book” Mieke Bal, Double exposures
(2) entre os quais: o Museu Bagatti Valsecchi em Milão, o Museu Internacional da Perfumaria no Sul de França, o Museu da Vida Romântica em Paris, o Museu de Insectos e Borboletas La Ceiba nas Honduras, o Museu da Medicina Chinesa em Hangzhou, o Museu-Atelier de Paul Cézzane em Aix-en-Provence, o Museu Florence Nightingale, em Londres (onde também visita o Soane’s Museum) e no nosso Museu Romântico da cidade do Porto (na página 624).

Nota minha:
Por vezes, enquanto lia este livro, o meu filho de dez meses entretinha-se a meu lado com o marcador que reproduz a imagem da capa. Por isso ficou todo amarfalhado e poderia também ele fazer parte do meu “museu da inocência”.
(ver capítulo 69, "Por vezes", pp. 483-490)

2 comentários:

Pirolito disse...

Por se tratar de algo que diz respeito a uma fase muito recente da minha vida e porque por vezes as feridas teimam em não querer sarar, não peguei ainda no livro.
Este teu post deixou-me ainda mais curioso e, ao mesmo tempo,
mais receoso...
É navegando por entre estas pequenas/grandes coisas que encontramos realmente a beleza da vida.
Gostei muito!
Bjs para ti e abraços para os homens

Marta G. disse...

Ah, afinal és tu??? (risos) Obrigada e bjs